quarta-feira, 7 de abril de 2010

Clube da Tortura


Aqui vai minha primeira postagem. Esse é um conto de "Horror Brasileiro" que fiz pra uma coletânea que foi cancelada antes do lançamento, o nome é auto-explicativo: Clube da Tortura.



Clube da Tortura







- Meu anjo, eu quero fazer isso mais cem vezes.
- Não, me deixa em paz.
- Só mais uma vez, que tal?
- Prefiro morrer, eu prefiro morrer.
- Como desejar.


Tadeu se preparava para ir para seu curso de Macromedia Flash MX, seria sua primeira aula, ele pretendia aprender a fazer animações em flash para fazer seu próprio site, ele não tinha o mínimo de talento com informática, mas em seus vinte anos, nunca havia desejado tanto realizar um projeto. Ele vestiu sua regata favorita e suas bermudas velhas e sujas, o jovem nunca havia sido vaidoso, às vezes chegava a ser desleixado, mas isso nunca o atrapalhou em nada. Saiu pelas ruas de Brasília, debaixo do sol infernal que fazia quase todos os dias, Tadeu era um rapaz baixo para sua idade, moreno escuro de olhos castanhos e cabelos da mesma cor, ele tinha bom coração, mas era ganancioso como um empresário estadunidense.
O trânsito estava ruim no dia, o que atrapalhava a caminhada de Tadeu, que morava a dois quarteirões do curso, mas tinha que atravessar uma rua muito movimentada que estava com semáforo quebrado, o que, às vezes, fazia com que demorasse até meia hora para conseguir atravessar a rua.
- Esse sinal quebrado é um inferno. – Tadeu estava bastante impaciente, estava esperando uma chance de atravessar a rua, fazia vinte minutos.
- Concordo contigo. – Uma garota da mesma idade de Tadeu concordou, ele não se lembrava de ter falado com ela.
- O idiota do governador não manda trocar essa porcaria, ontem vi no jornal pelo menos umas duas notícias sobre atropelamentos nesse sinal quebrado, mas também é fato que os meliantes que quebraram o sinal, também não são dignos de respeito. – O rapaz gostava bastante de assistir jornal, mas odiava as péssima notícias que eram apresentadas quase toda hora.
- É, uma das pessoas que morreram atropeladas ontem, foi minha irmã, por mim, eu prenderia esses políticos e motoristas incapazes pra cadeira, para apodrecerem para sempre, atrás das grades. – A garota olhava os carros passarem, sua voz era dura e severa, como se tivesse sido criada no fio de uma navalha.
- Eu seria hipócrita se eu dissesse “meus pêsames” ou “sinto muito”, mas é realmente irritante pensar que um idiota qualquer pode matar na rua e sair ileso. – Tadeu nem chegou a olhar para a pessoa com quem falava, ele era sincero, às vezes rude.
- Obrigada, gosto de sua sinceridade. Qual é seu nome? – A garota falou com um tom mais suave, como se estivesse satisfeita.
- Sou Tadeu, e você? – Ele olhou para ela, a sua parceira de conversa era uma menina muito bonita.
- Meu nome é Samantha, prazer em conhecê-lo, Tadeu. – Ela sorriu, olhando diretamente para o estudante.
- O prazer é todo meu. Mas caramba, esses carros nunca vão parar de passar? – Tadeu já estava cansado de esperar, parecia que todos os carros do Brasil decidiram passar em alta velocidade naquela rua.
- É, assim não vou chegar no meu curso a tempo, isso por que saí meia hora antecipada. – A garota voltou a usar o tom duro.
- Que curso você está fazendo?
- Macromedia Flash iniciante.
- Não é possível! Eu também!
- Tá brincando, né?
- Juro, tô querendo fazer um site. – Tadeu pareceu animado por ter conhecido uma de suas futuras colegas de curso.
Eles conversaram e fizeram planos entre si, até terem uma oportunidade de atravessar a rua, caminharam e conversaram até chegar no local do curso, uma lan house muito freqüentada. A aula já havia começado, Tadeu e Samantha se sentaram em dois lugares livres, a aula era dada em uma parte separada da Lan House, mas que, obviamente, como todas as outras, era cheia de computadores. O professor ainda estava explicando o funcionamento básico do programa, então os alunos atrasados não tiveram problemas para acompanhá-lo, durante a aula, chegaram outros quatro alunos atrasados, pelo jeito, não eram poucos os que estavam tendo problemas com horário. No final de uma hora e meia, a aula foi concluída, os alunos também deveriam fazer um trabalho para a aula seguinte, uma figura humana básica animada no flash.
- Até que eles não enrolaram, já aprendemos a usar todas as ferramentas de desenho e o princípio da animação. – Tadeu comentava com Samantha na saída da Lan House.
- Realmente, mas não é complicado de se aprender o básico, esses cursos só são realmente úteis na parte que complica.
- Já conhecia as bases? Aliás, onde você mora?
- Sim, eu conhecia. Pergunta pelo fato de que estamos andando juntos como se fossemos vizinhos? Eu moro naquele prédio, a dois quarteirões do Pátio Brasil. – Samantha apontou para um prédio de ótima aparência a dois quarteirões dos dois.
- Moro no mesmo prédio. Como nunca nos encontramos antes? – Tadeu estava impressionado com a coincidência.
- Deve ser por que eu estou sempre fora, raramente paro em casa, eu até vou dar uma voltinha agora. Quer ir comigo? – A garota tinha um olhar bastante persuasivo.
- Claro, meus pais me dão carta branca pra fazer qualquer coisa até as 10 da noite, como são 7 agora, posso ficar três horas livre.
- Tenho carta branca até às 19 de amanhã, meus pais sabem que sei me cuidar. Mas vamos logo, faz tempo que não conheço ninguém tão interessante. – Samantha saiu puxando Tadeu.
- Onde vamos? – Ele se deixou levar, estava sentindo uma sensação estranha dentro do peito.
- Pátio Brasil, podemos ver um filme juntos.
- Em que filme você pensa?
- Você verá. – Ela manteve o suspense.

Poucos minutos depois e os dois já estavam no andar de cinema do Pátio Brasil, na fila para comprar ingressos para assistir “Os Simpsons, o Filme”.
- Adoro os Simpsons. – O jovem disse, apesar de nunca ter tido paciência para assistir desenhos.
- É bem romântico também. – Samantha conseguiu causar um arrepio em seu amigo, apenas dizendo isso,
- Romântico?
- Sim, bom para começar um novo romance. – Ela piscou.
- Muito. – Tadeu iria falar mais, mas chegou a vez deles para comprar ingressos. Com ingressos em mãos, o casal foi direto à sala do filme, que começaria em 12 minutos. Eles se sentaram na última fileira, sem pipoca ou refrigerante, já que ambos não gostavam muito de comer.
- Escuro aqui, isso me excita. – Samantha sussurrou no ouvido de Tadeu, que sentia seu corpo inteiro se remexer.
- A mim também. – Ele passou a mão na perna de sua “amiga”, a garota fechou os olhos e beijou os lábios dele. Ficarem se beijando ali mesmo, no cinema. Claro que a mão boba de Tadeu passou por locais indevidos em Samantha, que também tinha mão boba. Ficaram assim até o filme começar, aparentemente ninguém tinha visto o que estavam fazendo, eles assistiram o filme, enquanto se tocavam por debaixo da roupa.
- Porco-aranha, piada perfeita. – Na saída ele ria muito, o que não costumava fazer, mas tanto o filme quanto as mãos bobas haviam sido perfeitos.
- Vamos em um lugar mais escuro, pra fazer algo mais divertido? – A garota o convidou.
- Claro, vamos. – Tadeu desejava Samantha por inteira, e aparentemente, não seria difícil.
- Me segue, não vou esperar. – Ela foi descendo as escadas, Tadeu foi com ela. Saíram do Shopping e acabaram em uma obra abandonada, onde apenas os dois estavam, isolado de qualquer local.
- Que local estranho. – Ele sabia que precisavam achar um lugar deserto, mas aquilo era demais. Tadeu também reparou que tinha um pote de mel no local.
- Feche os olhos, vou fazer uma surpresinha.
Tadeu fechou seus olhos, mas ficou inconsciente antes de abrir, sentiu uma pancada violenta na cabeça.

Quando acordou, estava amarrado em uma cadeira, nu, amordaçado e de frente para Samantha, que o olhava.
- Minhas fantasias sexuais são bastante estranhas, não acha? – Samantha estava segurando o pote de mel, já aberto.
“ Que merda de fantasia é essa? Ela só pode ser uma psicopata, estou acabado” O pensamento de Tadeu não era positivo, mas estranho seria se fosse.
- Você irá gritar de tanto prazer, espere para ver, meu amor. – Samantha começou a passar mel por todo o corpo dele, em alguns minutos, Tadeu ficou com o corpo todo cheio de mel. Só após ela terminar de passar o mel, ele reparou que havia um formigueiro perto da cadeira.
- Pode fala agora. – Ela tirou a mordaça do rapaz, que gritou um palavrão qualquer.
- Essas formigas, que merda de fantasia é essa, garota?
- Eu te amo tanto, que quero compartilhar minha dor com você. – Ela assistia as formigas subindo no corpo de Tadeu, aos poucos.
- Que dor, que raio de dor? Essas formigas vão me comer. Socorro! Socorro! – Ele gritava enquanto as formigas começam a morder sua perna, iam surgindo cada vez mais formigas do buraco no chão, pareciam famintas.
- Ninguém vai te ouvir, idiota. Seja bem vindo ao clube da tortura, o vídeo de hoje vai ser um sucesso. – A demente tirou uma câmera digital de sua bolsa de alça, que carregava sempre, e colocou para filmar a cena, começando com um close nas pernas que eram mastigadas pelas formigas.
- Clube da tortura? Que merda é essa? – Tadeu gritava ao falar, a dor era muito forte, e piorava, já que apareciam cada vez mais formigas, e subiam cada vez mais pelo seu corpo.
- Somos um grupo de amigos, capturamos vítimas e filmamos torturas, então compartilhamos nossas experiências em reuniões semanais, se um membro fica uma semana sem garantir um bom vídeo de tortura, ele acaba se tornando a vítima filmada. – Ela filmava como se filmasse “os primeiros passos do bebê”.
- Mas por que? Por que? – Tadeu já não conseguia nem falar direito, a dor o paralisava.
- Por que é nosso hobbie, além de ser bastante estimulante intelectualmente. Pense comigo, eu tive muito trabalho pra preparar isso, tive que deixa o mel, a cadeira e a corda preparadas aqui na obra, tive que arranjar um idiota, e convencer ele a vir comigo pra esse local de noite, quanto ninguém passaria por perto. Isso é viver, meu amor.
Tadeu não entendia por que ela havia dito que o amava.
- Sem falar, que com você, foi mais fácil, eu moro no mesmo prédio que você e tive a feliz sorte de estar indo pro mesmo curso que você, é como se Deus quisesse que tudo acabasse deste modo. – Foram as últimas palavras dela para o garoto.
Demorou 35 minutos para que as formigas matassem Tadeu, tudo havia sido filmado Após terminar de gravar, ela foi embora, embora as formigas continuassem se alimentando do corpo morto de Tadeu, não havia sentido filmar a tortura de um morto.
- Amanhã vão encontrar o corpo destroçado e vão investigar tudo, mas felizmente, até lá, já terei morrido também. – Samantha saiu do local, e foi para algum lugar deserto, procurar “diversão”.

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