sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Divina Tragédia - Parte 4


Capítulo 4 - Os Dons

Ela se agarrou a minha mão, não questionei mais, fechei os olhos, e quando os abri, já não sabia aonde estava. Era um campo aberto onde havia plantações de arroz, algodão, batata, o alimento do século, entre outros vegetais, elas eram desorganizadas e as plantas quase se misturavam, estávamos na entrada de um celeiro, de onde saía um fétido odor de fezes de animais, que me infestavam as narinas como as correntes de um rio. O celeiro era todo feito em madeira de má qualidade, dentro se encontravam apenas dois animais, por trás de portinhas para que não fugissem, eram duas ovelhas, ou carneiros, não podia ver exatamente o gênero, não de onde eu estava, mas pareciam magras, e o pêlo de ambas era de um amarelo escuro e encardido, já sabia de onde vinha o mau cheiro.

- Que lugar é esse?

-Cada pessoa tem seu lugar no Universo, quando você está vivo, esse lugar é impenetrável sem a permissão do dono: sua mente, uma diferente dimensão, mas quando você morre, tudo muda, esse lugar particular continua no mesmo local, mas deixa de ser impenetrável. Cada espírito tem sua mente, seu mundo, mas ela passa a ser um local como qualquer outro no universo, e por isso pode ser encontrada e penetrada, um lugar de livre circulação, embora seja meio difícil se encontrar um ponto como esse em um mundo espiritual de tamanho infinito, as chances de se encontrar uma mente são de zero, mas se você seguir um espírito, rastrear, se teletransportar seguindo sua freqüência, então essa mente alheia se torna acessível mesmo sem permissão.

- Por que você está deixando tudo isso tão claro? Acha que alguém pode invadir sua mente?Por acaso está sendo perseguida por alguém? Desde que nos encontramos que ela vinha demonstrando uma intensa paranóia, sempre preocupada em me preparar, com imprevistos, riscos, com o fato de ume mente pode ser invadida. Estava a sua segunda morte jurada por alguém?

- Há as mentes que são particulares, e os planos, que são coletivos, onde espíritos de freqüência parecida e mesma natureza são reunidos. – Ela manteve sua expressão, simplesmente ignorou a minha pergunta.

- Responda a minha pergunta agora. – Pela primeira vez soei grosseiro com Luna.

- Não, eu não estou jurada de morte, eu só vi o pior lado que esse mundo pode apresentar, então confie em mim, você deve estar preparado para o pior, nós devemos, se morrermos aqui não teremos uma segunda chance, nenhum tipo de chance. – Tinha a voz chateada, acabei me arrependendo pelo meu tom de voz, ela devia ter razão.

- Desculpe. – A abracei, seu rosto colado no meu parecia mais macio que da primeira vez.

- Vamos ver como estão seus reflexos. – Sorriu e se separou de mim, se afastando alguns metros e esticando o braço.

- Vam... – Não pude terminar a frase, nem sequer a primeira palavra que diria, pois aquela imensa mão me atingiu na forma de um punho, saído como uma extensão de seu braço esquerdo, fui lançado no chão e rolei como uma bola de futebol, ralando meu corpo todo e sentindo dor. A dor espiritual, de fato, não é como a dor física, não dói realmente, é uma impressão de dor que causa um forte desconforto, uma impressão tão forte que chega a ser como a dor física, mais suave, diferente, mas também muito desagradável.

- Não estão bons. – Ela recolheu sua falsa mão. Eu não imaginava que o material que ela controlava fosse tão rígido, parecia que eu tinha sido soterrado por um deslizamento de terra, mas que com um corpo espiritual mais resistente que o físico, não teria sido isso o bastante para me matar. A dor passou em poucos segundos, a capacidade de regeneração da alma entrava em ação, me levantei, hesitando com medo de levar outro daqueles, então gritei:

- Por que você fez isso?

- Doeu muito? – E tinha.

- Sim!

- Então da próxima vez que eu fizer você estará atento, quando uma criança se queima no fogão, ela passa a ter cuidado com fogo, a mesma regra se aplica a você. Use sua energia para criar uma proteção, a forma da barreira só dependerá da sua imaginação, claro, mas esteja atento, pois não terei piedade na violência com que te atacarei.

- Você só quer dizer que acha que me machucando vai fazer com que eu... – Não pude terminar a frase novamente, a mão veio novamente, mas a tempo me concentrei em uma espátula de energia de mesmas proporções, e rebati a agressão, que não me atingiu, mas por pouco. Havia dado certo, embora a minha criatividade não estivesse muito alta no momento, de fato não era hora para fazer omelete ou panqueca.

- Vê? Funciona! Tente me atingir agora. – Recolheu novamente o apêndice, colocou as mãos dentro da calça como se fosse se coçar em alguma parte indevida, não era boa hora, mas não pude evitar imaginar o percurso daquelas mãos, tocando constantemente naqueles segredos e maravilhas que se ocultavam em sua roupa e... enfim, fiquei com os pensamentos um distante nessas idéias, até voltar a me atentar a realidade.

- Devo te bater?

- Sim. – Ela continuava com as mãos lá, dava para ver pelos movimentos dos braços que realmente se coçava ou esfregava ou alisava.

- Mas por que você ta coçando dentro da roupa?

- Roupas espirituais são ornamentos com baixíssima quantidade de energia, mas complexos de se criar, aqui inicialmente usamos a roupa que tínhamos no corpo antes de morrer, mas geralmente podemos mudá-la com apenas um pensamento, desde que tenhamos a lembrança de que usamos essa roupa em vida. Só estou escondendo a mão, para mostrar que não reagirei, não estou coçando, só passando a mão, nem é por nada de especial, só por passar. E por favor, me bata logo, quero ver a intensidade desta sua energia

Não falei mais nada, me concentrei bem para poder moldar uma marreta de energia, que joguei contra o rosto dela, mas não pude fazer isso com muita força, não porque não tivesse, mas porque não teria coragem de machucá-la realmente, a marreta se chocou no meio do rosto dela, que nem sequer se moveu, apenas a arma recuou, e ela se manteve parada, como uma estátua, com muita decepção nos olhos. Eu explicar o porque do golpe fraco, mas ela lançou aquela já conhecida mão em mim, pude bater a marreta na frente, e ela repetiu o movimento, e nos encontramos em um duelo, golpeando e defendendo mutuamente, agora eu usava força, pois se não usasse, quem se machucaria seria eu. O estrondo das pancadas dos objetos por nós criados era como os sons graves e agudos de uma construção, havia um certo ressoar metálico naquela falsa mão, um som agudo em cada batida, estridente e agônico, enquanto minha marreta tinha som de madeira, bastante grave e abafada. Eu colocava toda a minha força nos movimentos defensivos. Mas como eu poderia explicar o que é a força que você pôe em um objeto controlado pelo pensamento? Nada mais do que concentração, esforço, foco, e claro, pensamento, imaginar que realmente há força naquele movimento, acreditar e se concentrar nessa idéia, é isso que faz a força espiritual. Aquilo parecia um duelo de espadas medieval, e eu começava a perceber que Luna não estava de fato tentando me acertar, mas só me induzindo ao movimento, na verdade, já começava a me divertir, me sentindo Romeu em combate ao primo de Julieta, embora meu adversário fosse a minha própria Julieta. Todo esse entretenimento ingênuo se quebrou quando a mão atravessou minha marreta como uma enxada atravessa uma folha de papel, e me esmagou. O que senti foi a sensação de morrer, o corpo todo bateu e rebateu no chão, os ossos, por um momento, pareceram virar pequenas lascas, músculos se distenderem, sangue parou de correr, um sufoco terrível, uma agonia pontiaguda que me apresentou ao Inferno por um momento, um único momento de sofrimento extremo que acabou assim que a batida acabou, um único maldito momento, a dor foi forte, embora fosse totalmente diferente da dor de física, mas a sensação era de ser exterminado, uma sensação cruel de agonia, podia não sentir a dor de ossos quebrados, mas ainda assim sentia os ossos quebrados. Fiquei jogado no chão, nem sequer podia imaginar que poderia haver algo tão ruim, minha arma se recolheu a meu corpo imediatamente, inconscientemente, e fechei meus olhos, tentando esquecer aquela sensação, que parecia se repetir centenas de vezes.

- Isso sim doeu, não é? – Ela foi até mim e passou a mão no meu pescoço, senti vontade de correr, mas não tinha disposição para isso.

- O que você fez?

- Doeu?

- Muito.

- Nunca mais farei isso, eu sei o quanto é ruim sofrer, meu amor. –Beijou meu rosto. - Eu só queria que tivesse uma noção de como é, eu te bati com força mesmo dessa vez, então o que você sentiu não foi diferente do que você sentiria se fosse atacado por um demônio de grande poder, então se sinta forte, pois você resistiu ao sofrimento, e isso me deixa orgulhosa.

- Não tinha como simplesmente continuarmos a brincadeira, eu estava aprendendo!

- Brincadeira? O fato de eu não estar usando toda a minha capacidade não significa que era uma brincadeira, se você deixasse eu te acertar, eu acertaria do mesmo jeito que fiz, mas como não deixou, tive que acertar à força mesmo, e peço desculpas por isso.- Subiu as carícias até meu pescoço, Luna teria que me agradar muito mais que aquilo se quisesse compensar aquele segundo horrendo.

- Você é cruel.

- Eu posso mudar, se você realmente quiser muito.

- Muda? Então não seja mais cruel comigo, seja boa e carinhosa.

- Tudo bem, eu serei um anjo para você. Mas que tal irmos a outro lugar agora? Acho que você iria gostar de conhecer mais alguns dos maiores cientistas da história.

- Sim, eu gostaria de voltar ao lugar onde estávamos, conheci Newton, e seria muito agradável conhecer outros grandes, compartilhar de várias sabedorias de várias épocas e culturas.

- Então iremos. – Pegou em minha mão e gesticulou com a cabeça, eu sabia o que fazer, fechei meus olhos, e quando abri, estava de volta à Cidade dos Cientistas, no mesmo ponto de onde havíamos voltado, trocamos algumas palavras sem importância e começamos a caminhar pelas ruas cheias de gente, olhando rosto por rosto para ver se reconhecíamos alguém dos livros de ciências, estávamos entre centenas de sábios anônimos, de homens que em parte contribuíram para a evolução da humanidade, mas que não foram reconhecidos ou premiados por isso, pessoas que dedicaram suas vidas ao bem, a trazer luz aonde havia trevas. Ciência! Reconheci um homem com roupa de nobre na moda européia do século XVIII, com um grande peruca branca na cabeça, escrevia em um bloco de notas usando pena e tinteiro. Me aproximei, e tive certeza de que era ele: o pai da química moderna.

- Senhor Lavoisier, sou Artur, um verdadeiro admirador de seu trabalho. – O cumprimentei como um estagiário cumprimentaria um provável patrão.

- Olá, o que quer? É que estou meio ocupado, estou escrevendo um livro chamado A Química dos Espíritos, com pesquisas minhas sobre a composição do mundo espiritual, de que tipos de partículas ele é formado, como elas se comportam, e como se agrupam.

- É impressionante, senhor, espero que haja alguém para psicografá-lo e tornar esse conhecimento acessível aos vivos. Mas então me despeço, só gostaria de tê-lo conhecido, e acho que já o fiz, então devo deixá-lo continuar seu trabalho. – Fiz uma reverência e me virei, dando o primeiro passo da minha ida, mas parei quando senti a mão dele em meu ombro:

- Pare, eu posso sentir algo muito incomum em você. Você está vivo?

- Sim, estou. Como sabe disso? – Me virei novamente para o grande químico.

- Dá pra sentir, a energia de um vivo é diferente da de um morto, mas a sua é realmente diferente até da daqueles que estiveram por aqui antes, é como se você estivesse vivo e morto ao mesmo tempo, e não vivo no mundo mortos, como qualquer pessoa normal.

- Como assim, o que isso significa? O que eu tenho?

- Se acalme, eu não sei o que você tem, mas é estranho, eu te aconselharia a ir me encontrar com Einstein, o nosso líder, ele pode ser o maior de todos os espíritos da ciência, mas sempre encontra tempo para ajudar aqueles que buscam ajuda, além do mais, tem muito conhecimento e é sábio, saberá dizer o que você tem.

- Oh, eu agradeço, senhor Lavoisier. E onde posso encontrá-lo?

Ele me deu as orientações de por onde ir para me encontrar com Einstein, era um longo caminho, mas simples, ele estaria, após muitas andanças, na sala número 720 de um longo corredor, pelo qual deveríamos passar, e deixou claro que deveríamos bater em sua porta e chamá-lo por “mestre”, para deixar claro o nosso respeito e não permitir que o líder achasse que éramos invasores ou baderneiros. Me despedi do bom cientista, agradecendo mais vezes, em nenhum momento de nossa conversa ele deu atenção a minha companheira, simplesmente ignorando sua presença silenciosa, talvez não tivesse realmente nenhum possível assunto um com o outro.

Divina Tragédia - Parte 3



Capítulo 3 - No Desconhecido


Quando voltei ao solo, depois de um tempo que eu desconheço, pois com o prazer do voo, e felicidade, felicidade de ter a liberdade total e se entregar a ela, tudo isso fez com que qualquer noção de tempo desaparecesse, talvez horas tivessem parecido segundos, ou segundos horas, quem sabe.
- Eu consegui!
Luna correu até mim e me abraçou com muita força, força essa que eu nem imaginava que ela tivesse.
- Sim, você conseguiu, agora já sabe como se virar por aqui, você precisa fazer tudo do mesmo modo que você voou, agora precisamos descobrir quais são seus dons. - Beijou meu rosto e me soltou, se sentando na cama com as pernas cruzadas.
- O que são dons? - Me sentei de frente pra ela.
- Veja isso, e não fale nada, apenas veja. - Ela me estendeu a palma da mão, devíamos estar a meio metro de distância um do outro. Olhei para a mão, sem compreender o que ela queria, curioso, ansioso, foi então que vi algumas pequenas bolhas se formando na sua pele, como pequenas inflamações, me senti tentado a perguntar o que estava acontecendo, mas queria seguir seus comandos de silêncio, talvez fossem realmente importantes para aquilo que ela intencionava. As bolhas foram crescendo na vertical, subindo sem parar de um modo realmente assustador, não pareciam feitas de água ou pus, mas de carne maciça, o que eu vi se formar eram como tentáculos, exatamente cinco saindo da mão dela, eles se tornaram brancos e de aparência gasosa assim que superaram o comprimento de 10 centímetros, eu observava com espanto, eles cresceram mais, e muito rapidamente, e logo cada um deles tinha o comprimento de um corpo adulto, aqueles apêndices bizarros se enrolaram em volta do meu corpo, mas sem me encostar, e o que eu senti foi medo. Ainda assim, só observei, olhando para os lados, enquanto eles se moviam em volta de mim como fios de marionete, eles eram absolutamente brancos e tinham uma aparência um pouco transparente, dissipada, gasosa, como se tivessem uma densidade baixíssima, mas não o bastante para serem chamados de gás realmente.
- Isso é um dom, eu tenho o controle sobre a energia e posso convertê-la nesse material que você está vendo agora, ele é basicamente energia espiritual com formato, por isso essa aparência que você certamente não consegue distinguir. - Ela me disse, com um sorriso desdenhoso que demonstrava o quanto ela estava rindo por dentro do meu receio, os tentáculos engrossaram de uma vez, ficando com a espessura de seis braços humanos que dançavam em volta de mim, o meu medo diminuiu ao invés de aumentar, eu sabia que ela não me faria nenhum mal, mas aquilo era totalmente desconhecido para mim, e o ser humano tem naturalmente medo do desconhecido.
- Não fique assustado, é sério, esses braços que você tá vendo não são nada mais do que extensões do meu corpo espiritual. - Ela recolheu todos de volta para seu corpo, e colocou a na cintura, achei que ela não faria mais nenhuma demonstração dos seus assustadores poderes, mas o que vi em seguida foi realmente incomum e surpreendente, ela abriu a boca e uma grande mão são de lá dentro, vinha como vapor, fino por dentro, e crescendo depois de conseguir espaço além dos lábios, posso descrever aquela mão perfeitamente como fantasmagórica, exatamente do modo como as pessoas que ainda vivem imaginam os fantasmas, criaturas brancas, de aparência gasosa. Ela mantinha a boca aberta, a boca fez alguns gestos, movendo os dedos, abrindo e fechando, ela fez um movimento de sugada com a boca e a mão voltou para dentro dela, quando voltava, a mão de energia espiritual apresentou uma aparência absolutamente gasosa, como de vapor de água, diferentemente de antes, quando só sugeria uma certa textura gasosa. A essa altura eu já tinha me acostumado com aquela habilidade, habilidade visualmente assustadora, mas sem dúvidas realmente fascinante.
- Seu dom é muito assustador, eu estou com medo de você agora.
- Ah, espere até conhecer o seu, nós iremos descobri-lo agora mesmo, depois que se aprende a voar, todo o resto fica bem mais fácil. – Luna agarrou-se em minha mão esquerda e apertou com muita força, tentei puxar de voltar e dei um grito de dor, ela iria quebrar meus ossos como se fosse de plástico barato, por mais que tentasse tirar minha mão, eu não tinha força para me soltar, era como uma prensa.
- Tá doendo, pára!
- Fique calmo, isso é necessário. - Ela continuou apertando, meus ossos começaram a se partir, então sim eu dei um verdadeiro grito de dor, digno da dor pungente que senti, como se meus ossos fossem de galinha e perfurassem minha carne, ainda assim aquela mão pequena e forte me apertava. A soquei com a mão direita, livre, exatamente no rosto, não esperava agredir minha amada, mas o instinto de sobrevivência sempre fala mais alto, Luna não reagiu, e continuou apertando, e eu continuei soltando mais gritos e a atacando como podia, batendo em seu rosto, dando murros mal feitos e cotoveladas. O rosto dela ruborizava, mas por mais que eu batesse, parecia que eu estava socando uma parede de concreto, foi nas pancadas que lhe dei que percebi que sua pele não era tão macia e frágil como imaginava, se eu acariciasse seu rosto e seus lábios, era como tocar em uma macia seda viva e delicada, fina e feminina, mas batendo eu podia sentir a rigidez que havia além da pele, uma carne resistente, um corpo forte, rígido, não exatamente carne humana, parecia mais como terra, solo, ela era totalmente sólida. E a dor apenas aumentava, os ossos se quebravam em partes menores, e a sensação era de que minha mão seria reduzida a algum tipo de “papinha”, doía demais, e ela não demonstrou de nenhum modo que pararia, nem sequer em seu olhar, que parecia indiferente e seco. Meu desespero tomou uma forma sobre minha mão direita, pude sentir como se houvesse um grande peso em minha palma, um peso maior do que o do meu próprio corpo físico, e estranhamente eu tinha forças para segurar aquilo, lancei minha mão livre contra o peito de Luna, me aproveitando daquela força aparente, e no impacto ela deu um gritinho, me soltou e foi lançada para trás, empurrada energicamente a uns 2 metros de onde estava, quase caiu no chão, mas se equilibrou e se manteve de pé. Olhei para minha pobre mão esquerda, abri e fechei para testar seu estado, parecia tudo normal, e não havia mais nenhuma dor, como se os ossos quebrados não tivessem passado de um estranho delírio.
- Luna, o que foi isso?
Ela sorriu: - Você acabou de revelar sua habilidade, você me bateu com algo, e o algo que você usou é o seu dom, era energia pura, uma forte massa de energia, é uma habilidade excelente, nós descobriremos se você tem outras, mas depois, ainda temos tempo. Por que você acha que te machuquei? Evoluímos por necessidade, e a necessidade que você acabou de ter foi de se defender.
- Não isso, estou falando da minha mão. Você não a quebrou?
- Não, apenas usei uma habilidade que desenvolvi durante meus vários anos de vida, eu posso criar a ilusão de uma dor intensa em alguém através do contato físico, por isso você achou que estava com a mão quebrada, mas foi apenas dor. E mesmo se não fosse ilusão, aqui no mundo espiritual a cura é bem mais simples, só é necessária energia e habilidade, na verdade, irei te explicar sobre a sobrevivência do corpo espiritual agora. – Ela se sentou na grama com as pernas cruzadas, por um momento seus olhos pareceram maiores que de costume.
- Conte, estou aqui para te ouvir. – Me sentei de frente para ela, pus minha mão esquerda sobre a dela, e segurei suavemente, não queria sentir ossos quebrando de novo, mas apenas o toque daquele pele aveludada, o delicado revestimento de um interior rígido e forte.
- Espíritos são formados basicamente por energia em vibração conjunta, formando uma unidade, essa unidade define o que é um espírito, se essa energia for separada, a unidade se rompe e há a morte espiritual. corpo espiritual tem uma forma original, muitos tem a habilidade de modificá-lo, assim como eu tenho a habilidade de causar dor com o toque, e muitos acabam sendo modificados involuntariamente por vários fatores, mas há aqueles que não podem mudar sua forma, então tem sempre a mesma aparência, mas o natural é a forma humana. E a unidade de que falei pode ser rompida de vários modos, se você é agredido, seu corpo espiritual é deformado do mesmo modo que seria no mundo material, basicamente o comportamento do corpo aqui é o mesmo do corpo lá, se você leva um soco, seu rosto fica vermelho, se você é esfaqueado, você sangra, mas o sangue daqui, nada mais é do que energia concentrada em uma forma avermelhada , se você perde sangue, você perde energia, se você perder uma certa quantidade de energia,a unidade é destruída e você morre. Ao mesmo tempo, se você for ferido em alguma parte específica do seu corpo espiritual por algum tipo de força muito grande, a unidade já é rompida automaticamente, você nem precisa perder a energia, ela se separa e você morre pra sempre na hora.
- Me dê um exemplo. Qual parte específica é essa? E que grande força?
- Bem, geralmente vai ser no centro do seu corpo, se você for um humano na forma normal, não deformado, o que é seu caso, então geralmente será coração e cérebro, respectivamente no peito e na cabeça, e a grande força pode ser uma investida de um espírito mau que tenha uma grande quantidade de energia, por exemplo. E ainda não terminei minha explicação, apenas ouça. Aqui sangramos, nos arranhamos, e também quebramos ossos, o dano que temos aqui causa os mesmo problemas que causam no mundo real, se você quebrar um osso, você vai sentir dor e não vai poder mover a parte quebrada, mas em compensação, tudo se resolve facilmente, pois a capacidade de regeneração espiritual é muito maior do que a material. Por exemplo, se eu fizer um corte no seu braço, o ferimento se regenerará rapidamente de modo involuntário, isso porque a sua energia irá tratar de substituir a parte que foi danificada, mas se o ferimento for maior, você precisa fazer isso conscientemente, e não será exatamente rápido. Por exemplo, se eu cortar sua mão, você precisará concentrar sua energia para regenerar a parte arrancada, e isso exige muita energia e esforço, mas basta imaginar, aqui no mundo espiritual, tudo se baseia em imaginar e desejar, assim como você se imaginou voando, assim como imaginou aquela pancada forte que você me deu com sua energia, algumas pessoas tem maior capacidade de regeneração, como eu, e podem demorar segundos para regenerar algo que outra pessoa demoraria dias pra consertar. Mas claro que há limite, como há um grande gasto de energia para haver regeneração, se você estiver fraco, com poucas reservas energéticas, você não será capaz de reparar nenhum dano, e por exemplo, se você estiver sendo atacado por um espírito mau, e estiver se regenerando aos poucos de cada dano, chegará um ponto que em que não terá mais condição de se curar, e todos os golpes seguintes serão definitivos, chegando ao ponto da sua morte espiritual, ou por ficar sem energia o bastante pra existir, ou por ter um ponto vital para a unidade rompido. Entendeu o que eu falei?
- Sim. – Concordei com a cabeça, não falei mais nada, ainda não havia me acostumado com o mundo espiritual. Podia ainda no mundo material acreditar em uma vida não material como a que tinha agora, mas me adaptar à ela seria uma provação, uma dura provação, mas uma provação facilitada pelo meu amor por aquela cujos olhos encantavam todos os meus sonhos mais doces e felizes, mas essa facilidade não seria a simplificação do processo de adaptação, mas sim, um intenso estímulo que me daria forças para me esforçar e aprender a viver no mundo espiritual. Assim, eu poderia viver com ela, e viver para sempre. Não seria perfeito? Seria, mas talvez não fosse tão simples, geralmente não é, mas se fosse, que pessoa de sorte eu seria, teria a sorte que milhões de pessoas não tiveram: a graça do conhecimento do próprio estado, e a graça de conhecer um amor realizado porém puro e verdadeiro, que faria inveja à forma de amor idealizada por Platão.
- Bem, mas vamos desenvolver seu dom. Tente agora mesmo, vamos, levante sua mão e imaginei que há uma esfera de energia girando nela.
Soltei sua mão e posicionei a minha em forma de concha, imaginando como se uma pequena bola de sinuca feita de uma energia pura e imaterial girasse sobre ela, parecia um pensamento tão simples e natural, logo pude não apenas sentir aquela esfera praticamente sólida rodando sobre minha palma, mas também pude vê-la, parecia uma espécie de gelatina transparente, mas visível, eu podia ver além dela, mas a luz se refratava ao atravessá-la, confirmando sua existência.
- Acho que está dando certo. – Falei enquanto tentava fazer a esfera crescer, do mesmo modo que ma bola de neve cresce quando rola de um lugar alto, e fui bem sucedido, pois aquela esfera crescia à medida que eu imaginava, ganhando uma aparência cada vez mais sólida, deixando a cada instante que menos luz passasse por ela, perdendo sua transparência, sua leveza, e pesando.
- É fácil, não é? Agora imagine que essa esfera se torna uma extensão do seu braço e me toca no rosto. – Luna vigiava atentamente minha atividade, seus olhos eram como os de uma águia que sobrevoa sua presa, prevendo qualquer possibilidade de fuga, calculando todos os movimentos que deverão ser feitos, a angulação, velocidade, com hermética precisão, mas suponho que a intenção dela não fosse me caçar, mas apenas inspecionar na nova tarefa. Imaginei que aquele globo, que já tinha as dimensões de uma bola de queimada, como aquelas que as crianças usam para atingir umas nas outras nos horários de intervalo na escola, descontando a violência que não podem aplicar no dia a dia em um “jogo saudável” onde a mesma é permitida, se estendia como um tentáculo, algo com textura orgânica e comprido, uma serpente, um cipó ou um longo braço sem mão, e esse atento pensamento gerou exatamente um longo e fino tentáculo que saiu da esfera e se moveu de acordo com minha vontade, foi até o rosto de Luna, e a acariciou gentilmente, ela fechou os olhos e sorriu, estava gostando do toque. Para explicar melhor o que era aquela material que agora a agradava, eu poderia descrevê-lo como algo uma massinha de modelar cuja quantidade não era limitada, ela era sólida mas maleável, modelável, poderia ser moldada em qualquer forma, esticada, e objetos separados deste material, que era a minha forma de energia, se tornariam um só se fossem juntados pelo contato, assim como se junta a massinha vermelha com a massinha amarela para se formar a de coloração alaranjada.
- Hum, você está indo bem, mas é fácil. A imaginação e o desejo são a chave, nada além de nossa vontade impera sobre nossas habilidades, e é desejando e imaginando que podemos fazer desse mundo o nosso paraíso, onde nada é impossível, onde nada é limitado. O princípio básico é esse, agora que você, meu querido, o controla, todo o resto será fácil, por si só, não haverá nada que seja possível para alguém como você e que você não saiba exatamente como fazer, aprenderá naturalmente todos as habilidades que seu corpo espiritual lhe permite ter, e não será necessário auxílio meu ou de qualquer outro. Mas ainda assim, agora praticaremos mais, e embora você não precise de auxílio, minha orientação não te atrapalhará, apenas acelerará um processo que ocorreria de qualquer maneira. – Abriu os olhos novamente, brilhavam totalmente, eram a recompensa pelo sucesso da minha tentativa: vê-la com aquela agradável expressão, observá-la feliz me fazia feliz, de um modo altruísta que eu não poderia compreender estando preso a um corpo físico. Ainda assim, uma parte de seu discurso me plantou uma dúvida.
- Mas o que você quer dizer com “alguém como você”?
- Alguns espíritos tem algumas habilidades naturais que outros não tem, habilidades que só eles tem, talentos, fraquezas, e é isso que faz cada um de nós diferente.
- E eu tenho muitas habilidades?
- Não sei, iremos descobrir com o tempo, mas de uma coisa eu sei: Sua energia me atrai naturalmente, como a luz de lâmpada que seduz os insetos noturnos, então suponho que tenha algum dom realmente interessante a desenvolver, um bom potencial, no mínimo.
- Pelo menos faz idéia de que dom seja esse, e de por que eu o tenho?
- Não. Mas agora se concentre em liberar sua energia, se liberte, abra sua imaginação e faça tudo aquilo que for capaz de fazer, não se limite, tente, se for possível, conseguirá.
Segui seu conselho, criei alguns objetos simples, moldei a energia em forma de mangueiras, tacos, longas barras, e era muito mais fácil do que eu imaginava, bastava, de fato, imaginar com atenção. Me dediquei a essa atividade por cerca de uma hora, e então Luna, que me observava, chamou-me com uma leve cutucada.
- Bem, agora que você já tem um pouco de controle das suas habilidades como espírito, nós estamos prontos para partir para o verdadeiro mundo espiritual, além da sua mente.
- Como fazemos para sair daqui e ir para o exterior?
- Me abrace, vou mostrar como é se teletransportar.
Eu a agarrei entre meus braços, seu corpo parecia muito frio na hora.
- Imagine seu corpo virando luz, partículas sem massa, e imagine essa luz desaparecendo, e depois reaparecendo em outro lugar.
- Mas que lugar é para eu imaginar?
- Nesse momento vamos nos transportar juntos, quer dizer que iremos para o local que eu imaginar, você apenas irá me seguir. Mas bem, pra se teletransportar basta fazer o que eu disse e imaginar o lugar para onde você deseja ir, mas é isso que limita esse dom, pois não se pode ir a nenhum lugar aonde nunca se esteve, porque senão, é impossível mentalizar o local, e mesmo se tiver visto por foto, não adianta, pois do mesmo modo, você não esteve lá. Além disso, uma pessoa normal não consegue se teletransportar para um local próximo que esteja no alcance do seu campo de visão, além de certas regiões do universo terem acesso limitado, por possuírem várias barreiras ou limitações do gênero, como é o caso do Inferno, onde o único modo de chegar é entrando passo à passo, ou morrendo com a baixa frequência de espírito.
- Entendi. - Fechei os olhos e imaginei o que ela falou, senti por um momento como se tivesse morrido, e quando os abri novamente, me vi em um local que parecia uma grande escola, universidade, e onde vários espíritos vagavam, conversavam, bebiam, comiam.
- Incrível, onde estamos? - Me soltei do abraço, podendo sentir um leve cheiro de ferrugem no ar.
- No mundo espiritual, eu preciso terminar de explicar ainda. – Me pegou pela mão e fomos andando para a saída daquela escola, chegando à rua, onde caminhamos juntos, com ela no comando.
- Explique.
- Existem frequências altas e baixas em espíritos, os de frequência semelhantes se reunem em regiões semelhantes, pois a lei deste mundo é: semelhante atrai semelhante. Quando você se teletransporta, você precisa se concentrar em emoções da mesma natureza do local para onde deseja ir, tentar, e conseguir sentir um intensa alegria pode te trazer um local razoável como estamos, a menos que alguém te leve, como fizemos, Se sentir tristeza, vai para algum lugar ruim, dependendo do tanto dessa tristeza, para algum lugar realmente perturbador, mas se sentir amor, muito amor, se concentrar bem, pode ir a um lugar como o céu, onde os espíritos de luz habitam, já se experimentar sentir do mais profundo ódio, sua destinação será de fazer o Inferno parecer um parquinho de crianças. Ah, e naturalmente, dependendo da sua natureza: depressivo, festeiro, egoísta, altruísta, não há como ir a certas áreas, pois a natureza delas é totalmente contrária à sua, por isso eu não posso ir pro céu.
- Pode me dizer que lugares terríveis são esses para onde se vai com a tristeza e o ódio?
- Não, você descobrirá do modo certo, só contar não mostra a complexidade desse universo, meu amor, você precisa ver e sentir de tudo para realmente entender o que é a vida dos que já morreram.
- Esses espíritos. - Olhei em volta, era como uma cidade normal, pessoas de todas as idades, sexos, aparências, estilos de vestimenta, tamanhos, uma diversidade completa, complementado com praças, restaurantes, barracas, casas de todos os estilos, uma sociedade espiritual feita à imagem e semelhança do mundo físico. Ou teria sido o contrário? Vi um homem de óculos redondos com a aparência de uns 50 anos que me chamou a atenção, ele tinha uma expressão triste e um enorme bigode debaixo do nariz, seu cabelo estava desgrenhado e seus olhos fundos, ele escrevia alguma coisa em um caderno, sentado sobre o banco de uma espécie de um barzinho, tinha um copo sobre a mesa que parecia de cerveja. Aquele homem não me era estranho, um rosto já visto antes, mas onde? Só tinha que pensar um pouco, usar minha memória e recordar daquelas feições que eram definitivamente marcantes... sim, lembrei, e para me assegurar de minha certeza, fui até ele, pedindo licença a Lina, que esperaria meu breve retorno, mas não falaria com o senhor.
- Olá senhor, como se chama? Estou nesse mundo faz pouco tempo, mas sei que já vi seu rosto antes, só não me lembro de onde.
Ele se virou para mim, e com a expressão bastante séria respondeu, a língua que disse não era nem de longe português, mas sim alemão, mas eu entendi cada uma de suas palavras, como se falasse a minha língua mãe, e pelo jeito, ele também havia entendido o que eu havia perguntado. E a resposta para minha pergunta foi como uma luz, a luz que um mero tolo recebe diante de um grande sábio:
- Sou Friedrich Nietzsche.
- Oh, Nietzsche, sabia que era o senhor, mas diante da morte, a certeza se evanesce como névoa, não me arriscaria a confundir estas feições com alguém parecido, não sei afinal quantos espíritos de rosto parecido podem existir.
- E tu, jovem que falas, como é teu nome? E de onde vens?
- Meu nome é Artur Leon, e vim de Brasília, capital do país Brasil, que vem ascendendo na hierarquia mundial e tomando um lugar entre as maiores potências mundiais.
- Bom, e que assunto desejar tu tratar comigo? - A voz dele soava sempre extremamente formal.
- Eu só gostaria de conversar, sou um grande admirador se sua obra, especialmente de "Assim Falou Zaratustra". Mas quem diria que encontraria o senhor logo aqui? Na vida eterna! E peço com toda a humildade que tenho que me conte se há um Deus vivo e onipotente nesse mundo, como o que o senhor negou em vida. Existe?
- Sim, existe um Deus, mas não sei se ele é onipotente, nunca o vi, nunca o ouvi, nunca o senti, apenas ouvi falar, ele mora no paraíso, o local onde as almas mais evoluídas, mais iluminadas estão, um lugar de luz e felicidade, pelo menos pelo que dizem. Já nós, estamos na cidade de Sofia, uma das inúmeras cidades espirituais que estão entre o Céu e o Inferno, reservadas para aqueles que não são negativos o bastante para os locais mais baixos, mas também não são o bastante virtuosos para o Céu, nós que temos a frequência mediana vamos para essas cidades espirituais, esta aqui, cidade de Sofia, é o lar dos pensadores, aqueles cuja mente tem a frequência de um filósofo.
Nesse momento me virei para Lina. Ela não era uma filósofa, era? Besteira, ela poderia muito bem controlar a própria frequência para nos enviar ao local aonde estávamos, ou a qualquer outro lugar pelas cidades espirituais, certamente todas, ou pelo menos quase todas, ao alcance da frequência dela. Gesticulei para que viesse até mim, e ela entendeu, se aproximando, Nietzsche a cumprimentou.
- E tu, senhorita, quem és e onde vens?
- Sou Luna, eu já não me lembro de que país eu vim, morri faz muito tempo.
- Senhor Nietzsche, o que acontece é que minha amada companheira foi quem me trouxe até aqui, e gostaria que me desse sua sincera opinião sobre que país acha dela. Olhando a primeira vista, e sentindo tudo o que ela emana, diria que é um anjo ou um demônio?
- Bem. - Ele segurou o queixo e pensou um pouco, respondendo em seguida. - Olhos de loba, é o tipo de pessoa que eu admirava quando viva, forte de desejo, capaz de controlar seu próprio destino e quebrar os obstáculos, mas pelos olhos, diria que é um demônio, mas não daqueles seres rastejantes e bestiais, mas sim dos que são inteligentes e racionais, racionais ao ponto da indiferença cruel, de não usarem o coração. Ela não tem muita esperança em seu coração.
- É por isso que te chamam de filósofo? Sábio? Como um homem que duvidou da vida após a morte, após a própria morte pode julgar outra morta? Acha que está certo? Como pode saber? Você realmente se acha um sábio? Você não é Deus, e nem melhor que ele! - Lina o interrompeu, estava claramente irritada, seus olhos se dilataram, sua pupila castanha brilhou com mais intensidade diante da explosão de humor. Nietzsche estava certo? Só sei que ele recuou o rosto, levando um susto, talvez estivesse com medo dela.
- Me perdoe, menina, apenas respondi o que ele perguntou-me, mas esse é apenas o meu julgamento, minha visão, e não define o que és em realidade, não me considero um sábio, mas me considero um filósofo, um homem que não sabe tudo, mas que busca conhecer o máximo que pode, mas que anda assim pode errar em seus julgamentos, apenas julguei tais coisas pois teu olhar e o tipo de energia que de ti emana é muito semelhante ao das almas mais desgostosas e más, mas devo estar enganado, sou apenas um filósofo, nada mais. - O tom de voz dele mudou totalmente, inseguro, estava, sem dúvidas, com muito medo, sua boca falava uma coisa, mas sua atitude provava no que realmente acreditava: seu julgamento estava certo, ela devia ser um demônio. Me senti profundamente incomodado em vê-la aterrorizando Friedrich Nietzsche, o homem que não te ve medo nem sequer de Deus.
- Vamos para outro lugar, temos mais pessoas para conhecer. - Ela me puxou com força pela mão, me despedi do bom sábio e fui com ela, o alemão voltou a se concentrar em seus escritos pude ver que quando nos afastávamos, adquiriu uma expressão de alívio no rosto. Ela e eu caminhamos por entre vários espíritos, a maioria com idade avançada, provavelmente os filósofos tendem a morrer mais tarde que os guerreiros, astros do rock e poetas boêmios, fomos até uma biblioteca, e lá, Lina soltou minha mão e abordou um homem que lia uma cópia do Alcorão, tinha uma enorme barba, e passava uma imagem de severidade e força na sua postura, olhar e aparência.
- Senhor Marx, é o senhor? - Ela sorriu gentilmente, uma simpatia claramente falsa, ainda estava irritada pela conversa com o outro filósofo. Aquele era Karl Marx, o pai teórico do socialismo, divisor de mundos, um revolucionário sem fronteiras, pra mim, o melhor de estar em coma, depois de ser estar com Lina, era poder encontrar aqueles grandes homens que fizeram tanto pela humanidade, fui atrás dela.
- Sim, sou eu, e você, quem é, garotinha?
- Sou Lina, não conheço o seu trabalho, pois morri antes do senhor e nunca reencarnei, mas pelo conhecimento que tive ao acompanhar um mortal, então conheci vários pensadores que sequer eram nascidos quando eu vivi, e outros que, graças a minha condição precária, eu nunca ouvi falar, na verdade, nunca ouvi falar de nenhum pensador quando estava viva, a morte acabou por ser a melhor coisa que me aconteceu.
- Então você era uma escrava do capitalismo? Uma explorada da burguesia? E você, menino, quem é? - Se virou para mim, Marx estava interessado em conversar com Lina, agora eu já sabia algo que não sabia antes sobre sua vida mortal: ela era pobre.
- Sou Artur César, um brasileiro filho de professora e sem pai, estudante.
- Bem, não gostaria de dar muitos detalhes, mas eu trabalhei minha infância toda para sobreviver com péssimas condições, e como o senhor vê, eu morri bem cedo, com esse corpo jovem que o senhor vê agora.
- É lamentável que o capitalismo faça tanto mal à humanidade, ele não perdoa crianças e nem adultos, velhos, mulheres, ninguém, todos são escravos, todos são ferramentas. E você, garoto, tem sorte de ter tido as condições de estudar, poucos a têm, pena que tenha morrido. Eu já deveria ter reencarnado, mas aqui há muito aprendizado, coisas que eu nunca veria na terra, eu nunca imaginaria que haveria uma vida além da matéria, mas é ótima, aqui estou entre semelhantes, pensadores incríveis de todos os tipos, é a melhor universidade que já existiu.
- Marx, eu não acredito no socialismo, mas também não acredito em uma sociedade em que alguns nascem com tudo e outros com nada, em que alguns passam fome e outros comem ostras e caviar.
- Se não é a favor do socialismo, que opção acredita ser melhor para essa humanidade desigual?
- Eu não sei, essa é uma das grandes questões da humanidade.
- E realmente é, não posso culpá-lo, mas quando essa resposta for obtida, todo o esforço de todos os cientistas políticos da história será recompensada.
- Sim. - Lina concordou por mim, ela estava gostando da conversa. Me afastei por um momento, e eles continuaram falando, não sei o que diziam, mas logo ela o deixou e veio até mim, chamando para outro lugar, Nós descemos uma íngreme ladeira, e à medida que descia, podíamos ouvir uma suave canção de... lira? Algum instrumento muito antigo de cordas, uma melodia deliciosamente bela, perfeita aos ouvidos mais exigentes, quando chegamos ao fim da descida, encontramos um grupo de oito homens que jogavam um jogo de tabuleiro que desconheço, riam e se divertiam como boêmios em um bar. Um deles me chamou atenção, era um idoso de boa aparência, que dentre todos eles era o que mais ria. Minha amada o olhava com interesse, e eles todos ignoravam nossa presença, embora ela fosse perceptível, Lina sussurrou em meu ouvido com um tom que chegava a ser sarcástico, como se contasse uma piada, talvez por tanto que aquilo parecia incrível:
- Aquele do meio é Aristóteles, o sábio que fundamentou toda a sabedoria de nossa cultura ocidental.
- Podemos falar com ele, ou está muito ocupado? - Olhei para ela receoso, aqueles homens pareciam muito ocupados, e nada interessados em serem incomodados por duas crianças curiosas.
- Não, só queria que visse que ele pode ser um grande gênio, mas é um homem como qualquer outro, ele está lá, jogando e rindo com outras pessoas, como um adolescente, como um bêbado. Você não precisa ser sempre e abrir mão de todas as suas alegrias para ser um sábio, pra conseguir conhecimento e pensamento crítico, você pode muito bem rir de piadas infantis, sem por isso, ser chamado de infantil. Ah, e só pra completar, esse filósofo pode reduzir a nada sem nenhuma dificuldade, Aristóteles é o espírito mais poderoso da Cidade dos Filósofos, é o líder e também aquele que protege a cidade contra invasões de espíritos mal intencionados, embora permita visitas pacíficas como a nossa.
Observei Aristóteles por mais um tempo, de fato parecia um homem normal, nada além de um ser humano, podia ser um sábio, podia ser o pai da filosofia moderna e precursor de várias ciências, mas ainda assim, um homem.
- Sócrates e Platão também estão aqui?
- Não, sei que Sócrates já está no céu, e Platão eu não sei, deve ter reencarnado. Mas segure minha mão, já vimos o bastante nessa cidade, quero agora que vejamos a cidade dos cientistas, faça como antes, para se teletransportar. - Ela pegou em minha mão e fechou os olhos, fiz o mesmo, e imaginei meu corpo se desfazendo, se movendo como luz, logo que abri os olhos, estávamos em uma biblioteca muito maior do que em que Marx estava, haviam milhares, senão milhões de livros nas estantes, as mesas cheias de leitores atentos, eu podia sentir o conhecimento, a sabedoria que emanava no ar daquele local, era como respirar ciência. Reconheci Isaac Newton, que estava sentado em um local próximo de onde estávamos, ele lia o livro de literatura "Cândido"de Voltaire, um dos filósofos que eu ainda desejava conhecer. Me aproximei do físico, e o cumprimentei.
- Newton, o grande físico! Sou um grande admirador de seu trabalho, as leis naturais que o senhor definiu mudaram o rumo do mundo. - Falava com empolgação, aquele ela era sem dúvida um dos homens mais importante para a ciência em toda a história, ele estava com sua conhecida peruca branca, mas usava uma roupa diferente das vistas em fotos: um terno tipo smoking.
- Prazer, quem é você? - Ele sorriu, devia se sentir bem pelo reconhecimento e admiração de um total estranho.
- Sou Artur, do Brasil, morri faz pouco tempo. - Omiti o fato de não estar morto, mas em coma, mas isso não seria importante para a conversa. - E vim aqui para conhecer as pessoas que mais fizeram diferença no mundo, o senhor com certeza é uma delas, leis de Newton, leis naturais. Que outra lei científica ilustrou melhor a visão iluminista? A racionalidade acima de tudo! O pensamento é a lei!
- O pensamento é a lei! Sim, jovem! É exatamente esse o espírito, e trate de reencarnar, pois você morreu muito cedo, e alguém com esse pensamento não pode ficar muito tempo aqui, precisa ir pra terra, fazer diferença. - Isaac também estava animado, era a conversa de dois apaixonados pela ciência, o mestre, e seu modesto aprendiz, mesmo que um aprendiz através de escritos póstumos do mestre.
- Então por que o senhor não volta? Sua vida fará diferença nas gerações atuais, assim como fez nas anteriores!
Lina observava tudo de longe, ria baixinho, como se assistisse a dois tolos discutindo assuntos sem futuro.
- Eu já voltei duas vezes desde minha morte, acho que agora posso descansar um pouco,não tive muita sorte nessas duas vidas, na primeira eu nasci na França em plena guerra Franco-Prussiana, e fui morto ainda criança pelos alemães, no mesmo país em que fui Newton, depois nasci em Serra Leoa, e fui morto com 18 anos por um grupo de rebeldes, eles cortaram meus braços antes de me degolarem, foi horrível. Felizmente, consegui superar o rancor aqui no mundo espiritual, e retomar o conhecimento que tinha como Newton, sem sair do caminho do bem e do conhecimento, sem me entregar à violência e ao ódio, mas ainda sim, estou bastante temeroso de voltar para a terra, minha última morte foi pior que traumática, se eu não fosse um espírito já antigo e relativamente sábio, acho que eu me tornaria um daqueles demônios violentos que se vêem lá em baixo, como o odioso Malbas.
Ainda não tinha visto nenhum demônio, mas pelas descrições, deveriam ser terríveis. Mesmo se Lina fosse um, ela não contaria como um, pois para mim, ela era um anjo gentil e doce, a alegria mais pura para minha existência.
- Então, Isaac Newton, o senhor já viveu várias vezes antes de ser Isaac Newton?
- Sim, por isso eu tinha uma facilidade muito grande de aprendizado, pois já tinha aprendido muito em outras vidas. A gente não tem um nome só, mas todo espírito gosta e ser chamado pelo nome da sua encarnação que mais fez diferença na Terra, embora os espíritos menos evoluídos, sem luz, geralmente só consigam se lembrar de sua última vida, e estejam limitados, esses se chamam pelo último nome, ou às vezes, quando, apesar do mal, se tornam poderosos, os demônios, adotam nomes diferentes, como Leviatã e o odioso Malbas.
- O senhor é de fato muito sábio. Mas quem é Malbas? E por que é tão odioso?
- Bem, Malbas é um demônio bastante poderoso que quase destruiu esse lugar, mas foi expulso por nosso líder, o espírito de Albert Eistein, um dos homens mais admiráveis da história da ciência, Malbas é um grande controlado da mentira e da ilusão, por isso ele sempre consegue fugir quando será destruído por alguém mais poderoso, ele cria de todo tipo de ilusão para escapar quando vê que não têm condições de sobreviver. Como Einstein não é estúpido de sair de nossa cidade para ir caçá-lo na dele, e também não tem estômago para descer a um local tão baixo e imundo, ele o poupou, mas nunca esquecemos do mal que aquele monstro nos provocou.
- Então Einstein é o líder dessa cidade, desse mundo?
- Sim, exatamente, ele é o mais iluminado de todos nós, um homem justo e sábio, que nos protege com sua vida, com sua força, com sua inteligência, e com sua imensa sabedoria principalmente, o quem faz com que nos sintamos sempre seguros.
Luna me puxou pela gola da minha roupa e chamou impacientemente:
- Não acha que já conheceu espíritos admiráveis o bastante por hoje? Devemos nos concentrar em nos preparar para salvar sua vida, mas não faremos isso aqui.
- Gostaria muito de conhecer mais, estar entre sábios faz com que se adquira parte da luz de sua ciência e sabedoria, como o calor que fica na pedra que é submetida à luz do Sol, uma marca de que aquela luz maravilhosa esteve realmente lá. Mas temos pressa, não desejo morrer ainda, a gente realmente precisa descobrir quem foi o criador da barreira no meu corpo, e descobrir se temos condições de vencê-lo.
- Vejo que sua companheira o quer levar embora, me despeço então, Artur, foi bom conhecê-lo.
- Adeus Newton, a honra de conhecê-lo foi uma das maiores que já tive em minha vida, espiritual ou não. – Dei-lhe um aperto de mão e me afastei junto de Luna, logo direcionando minhas palavras ela: - Por que realmente temos que partir? Não está boa esta excursão? Não estou conhecendo o que antes ignorava e tendo acesso a sabedorias que já não estão vivas no mundo material?
- Você está adquirindo conhecimento sobre territórios e pessoas, o que quero que façamos agora é que treinemos seu controle sobre o espírito.
- Mas você não tinha dito que com a noção que tenho eu já estou pronto? Que basta imaginar e concentrar? Pois bem, então não foi o bastante?
- Pode até ser, mas devemos garantir, entende? Quero ter certeza de que você não terá problemas no caso de um imprevisto.
- Que tipo de imprevisto é esse com que você tanto se preocupa? Algum espírito ruim?
- Também, nunca se sabe.


Divina Tragédia - Parte 2


Capítulo 2 - Amor Eletrônico

Caminhei com passos contados até ela, e me sentei ao seu lado, deslizando meus dedos sobre seu cabelo, pude sentir que não eram tão macios quanto antes, pareciam sebosos e duros, como se não fossem lavados há anos.
Lembrei-me dos primeiros momentos com ela. Da primeira vez, exatamente um sonho, talvez não tivesse sido apenas um sonho, não, com certeza não havia sido um simples sonho, mas muito mais, um encontro de almas destinadas uma à outra, uma magnífica experiência astral sem precedentes, incomparável. Estava eu, ali, sentado sobre a grama das longas trilhas do clube onde os alunos de minha antiga escola, exatamente três anos atrás, faziam sua educação física, pelo menos na teoria, já que a maioria passava a “aula” brincando de carteado, jogando vídeo-game ou brigando. Eu não seria exceção, me encaixando no grupo do vídeo-game, sentado abaixo de uma pequena árvore para me proteger do claríssimo sol de Brasília, olhar pra cima em Brasília é sentir uma sensação parecida com a que Moisés sentiria se tivesse olhado pro rosto de Deus: uma cegueira instantânea e ardente. Jogava um jogo no meu vídeo-game portátil, quando uma garota surgiu quase imperceptivelmente atrás de mim, se abaixou e perguntou próxima do meu ouvido:
- Isso é Castlevania?
Me assustei quando a ouvi, e quase deixei o aparelho cair, mas depois que me virei e vi seu rosto me acalmei. Oras, ela me parecia a criatura mais bela do universo, mas como eu poderia ter certeza de sua beleza se apenas meus olhos a julgavam? Era muito jovem, uns 2 anos mais nova que eu, e uns 15 centímetros a menos também, e foi a primeira vez que vi aqueles cabelos de corvo, e aqueles dois olhos amendoados da mesma cor da árvore que nos protegia do sol, um corpo sem grandes “atributos femininos” como se pode dizer, coberto por um único vestidinho negro que cobria dos joelhos aos pulsos, uma boca pequena proporcional ao nariz delicada e desproporcional aos olhos grandes que brilhavam como espelhos que refletem a luz do sol, mas sem aquela dor aguda que se forma na visão como nos espelhos de verdade. Por um momento divaguei em pensamentos enquanto a olhava, podia sentir algo diferente, não uma simples aceleração dos batimentos cardíacos, mas uma espécie de fervor que atravessava minhas veias, como milhares de multidões loucas em um tumulto, estava tumultuado por dentro, flutuando em pensamentos fantasiosos e possibilidades supostas, até que finalmente voltei à realidade e respondi.
- É sim. Você gosta?
- Não sou exatamente uma gamer, mas gosto desse jogo, quando eu era pequena eu ganhei um daqueles vídeo-games que se vende em camelô, com dezenas de jogos no cartucho, Castlevania era o melhor dos joguinhos, mas acho que era o primeiro. – Ela se sentou do meu lado, olhando pra tela.
- Esse aqui é o Symphony of the Night, dizem que é o melhor jogo da série. – Virei a tela para que ela pudesse ver melhor. - Quer tentar? – Não pude deixar de sorrir, de mostrar minha satisfação tendo o interesse de uma criatura tão adorável em minha atividade monótona e solitária.
- Quero.
- Deixa só eu salvar. – Salvei o jogo como de costume e estendi a mão com o aparelho. Ela pegou o console da minha mão com o maior cuidado, e já começou a apertar os botões e jogar, então trocamos, ela jogava e inclinava a tela para facilitar minha visão, enquanto eu a observava.
- É, parece que você já conhece os comandos. – Comentei, um pouco surpreso com a familiaridade dela com os botões, estupidamente ainda ligado ao conceito de que vídeo-game é coisa para meninos, sendo que hoje em dia até mães de família jogam.
- Bem, isso é um PSP, eu sei que é um Playstation portátil, deve ter os mesmo comandos também. – Ela sorriu, apertando os botõezinhos com seus dedos que se moviam mais rápidos do que os de um pianista profissional.
Estava tão distraído que esqueci de perguntar a mais fundamental das perguntas.
- Como você se chama?
- Luna. E você? – Não virou o olhar para mim, mantendo-se centrada no jogo.
- É um bom nome. Bem, eu sou o Artur.
Então ela pausou o jogo e sorriu para mim, e eu a vi desvanecer-se no ar como vapor, junto com todo o cenário em que nos encontrávamos, assim, acordei, e percebi que tudo não passara de um doce sonho, e que o despertador já tocava, me mandando para minhas tediosas obrigações.
Pelo resto do dia ansiei pelo momento de sono, com a única esperança de novamente me encontrar com ela, com a certeza de que ela não era apenas uma criação da minha mente, desejando com todo o meu coração que fosse real, por mais impossível que fosse, aquela gentil Luna deveria ser real. Quando dormi novamente, nos encontramos novamente, no mesmo local, mas que agora estava sob o céu noturno, um pouco avermelhado e bastante frio, as sensações eram realistas para um sonho, mas não o bastante para serem realmente tidas como realidade. Desta vez não jogamos, conversamos sobre os mais diversos assuntos, e nossa conversa fluía incrivelmente bem, e a cada par de palavras trocadas, descobríamos mais em comum um sobre o outro, e tudo parecia como destino, pois todas aquelas palavras que saíam de sua boca pequena apenas mostravam o quão perfeita ela seria ao meu ver, tínhamos em média os mesmos gostos, e especialmente os mesmos defeitos. Ela tinha uma tendência a mostrar seu pior lado, como em uma necessidade de me fazer conhecer de uma vez os seus males, para depois então, valorizar mais suas virtudes, e não hesitou em me revelar o egoísmo e a indiferença, a incapacidade de sofrer pelos outros, de ficar feliz pelos outros, de querer o bem aos outros. E seus olhos pareciam perder o brilho quando falava sobre esse assunto, sempre tão sincera que mesmo ao parecer a mais desvirtuada das criaturas, ainda me fascinava de um modo incomum, e modo que minha certeza de que ela não era apenas um sonho crescia, mas não ao ponto de ser absoluta. Acordei após contá-la sobre meus vícios, semelhantes aos apareceu dela, mas em diferentes formas de egoísmo.
Na noite seguinte ela me esperava no mesmo local, dessa vez ela vestia uma roupa diferente do vestido preto dos dias anteriores, estava vestida com um conjunto de pijama cinza que só deixava as mãos, pescoço e cabeça à mostra, as calças desciam até os pés, bem mais longas do que o necessário, embora ainda pudesse ver que usava havaianas amarelas nos pés,. Me cumprimentou e me chamou para segui-la, obedeci sem hesitar, e fui levado até o final do clube, nas limitações da cerca do extremo ao sul, onde grandes árvores frutíferas cresciam, era noite, e o céu estava negro, sem uma única estrela à vista, e a lua brilhando cheia e soberana, iluminando todas as escuras trilhas daquele clube. Debaixo da árvore, ela me pegou pela mão e me beijou, não o contrário, e me senti como se em um único momento eu entendesse todo o sentido da vida, do mundo, o que é a felicidade, e, especialmente, o que é o amor. Meus olhos estavam fechados, e tudo que sentia eram seus lábios e sua mão que deslizava por minha nuca, curiosa, mas aquela sensação celestial que sua boca me proporcionava aos poucos se dissipava enquanto eu despertava, até que me encontrei, lamentavelmente, sozinho em minha cama. Mas aquela foi a primeira noite em que a toquei como uma mulher, e nada menos do que isso. Na noite seguinte ela viria a me contar que era um espírito, a alma de uma pessoa morta que me acompanhava, por algum motivo que até hoje não compreendo, aceitei aquilo com total naturalidade, talvez porque ainda achasse e suspeitasse de que ela não passava de um sonho, embora ainda torcesse para que ela fosse o que dizia que era: uma criatura morta, mas real, não uma criação da minha mente.
Muitas e muitas noites se passariam até o dia em que entrei em coma, quando nossos encontros deixaram de ser meros sonhos.

- Iremos passear? Preciso conhecer esse mundo antes de fazer outra coisa.
- Isso é óbvio. Mas sabe o que faremos depois que você aprender como lidar com o mundo espiritual?
- Não. É óbvio que não sei. – Tirei os dedos dos cabelos dela, já estavam engordurados, o que me surpreendeu e foi um pouco desagradável, mas não cometi a grosseria de comentar isso.
- Seria injusto que eu dissesse o nosso objetivo na primeira pessoa do singular. Não seria nosso, mas apenas meu. Não faria sentido, então só quero que você me diga, e essa não é uma pergunta retórica: pra onde um espírito vai logo após a morte?
- Para o lugar equivalente aos seus sentimentos e sua energia, certo? Se é uma pessoa rancorosa e infeliz ela vai para onde seus semelhantes estão, se for uma pessoa feliz e generosa, ela se encontrará onde os felizes generosos estão também. – Eu não tinha certeza, mas pelo que já tinha lido em vida, seria um processo parecido.
- É, assim mesmo. E agora nós estamos em sua mente, um lugar isolado, eu sou bastante antiga e já tenho controle o bastante para me transportar pelo mundo espiritual com facilidade, aqui não há nenhum espírito, pois estamos em um local distante do resto universo, você não imaginaria quantos lugares existem, mas ficaria surpreso em ver o quanto os espíritos se concentram em sua maioria em alguns poucos lugares. E não há lugar mais impenetrável que a mente de um vivo, mas há um momento em que um espírito pode entrar em uma mente: durante os sonhos, mas nesses casos, tudo que acontecer será uma ilusão, apenas imaginado pela mente, diferente do que estamos tendo agora, que é real. Por isso, se você morre em um sonho, você continua vivo no mundo real, e é por isso que apareci em seus sonhos, pois era o único modo de falar com você diretamente, e fazer você me deixar entrar.
- Entrar em minha mente?
- Sim, um espírito só pode entrar e habitar em uma mente se ele for convidado.
Lembrei daquela cena no nosso sétimo encontro por sonho, Luna me perguntou: - Deixa eu entrar na sua mente? Deixa eu fazer parte de você? Sermos como uma só alma. A resposta havia sido quase instantânea: Sim.
- Eu me lembro.
- Mas chega de conversa, nós precisamos começar seu treinamento agora mesmo.
- E o S? Ele disse que me ajudaria.
- Eu não sei quem é S, não podemos confiar nele. Mas em mim você pode confiar, pois não deixarei que nada de ruim aconteça a você. Então comecemos imediatamente. – A voz dela soou dura e áspera, autoritária e forte, agora eu podia ver o quão forte minha gentil Luna era na realidade.
Concordei com a cabeça, sem falar nada, ela seria minha mestra.
- Comecemos com alguns conceitos. Existe freqüência, mas também existe a intensidade. Fazendo uma analogia de modo que você, conhecedor da física básica, entenda: A freqüência é a velocidade da vibração de um espírito, e reflete seus sentimentos e a pureza da sua alma, que em termos mais simples pode ser descrita como a grandeza que define se você é bom ou mau, um espírito de luz ou maligno. Quanto maior a freqüência, melhor você é, e quanto menor, pior, se sua freqüência for próxima de 0 hertz, você é praticamente uma massa de maldade que perdeu qualquer resquício de amor, bondade ou felicidade. Já um com espírito com uma altíssima freqüência é um exemplo de felicidade e bons sentimentos, especialmente o amor, o maior dos sentimentos de luz, resumindo, a freqüência define que tipo de energia o indivíduo tem, boa ou ruim. Agora falando de intensidade, ou densidade se preferir, é a quantidade de energia de fato, enquanto a intensidade define a qualidade, a intensidade define a quantidade, um conceito fácil de explicar, simplesmente quanta energia você tem. Espíritos evoluídos são os que tem maior freqüência, e geralmente também tem maior intensidade, mas isso não é uma regra, pois existem seres de baixíssima densidade que tem uma grande quantidade de energia, e esses seres são o maior risco que existe no mundo espiritual, pois são o que nós podemos chamar de Malignos Poderosos. – Ela se calou, respirou fundo e fechou os olhos, parecendo cansada de tanto falar, eu apenas a observei, sem falar nada, estava apenas a ouvidos, e quanto mais ouvia, mais queria ouvir, pois a cada nova informação, um grande leque de explicações era necessário.
- Continuando. – Ela abriu os olhos novamente pra falar, me fitando atentamente. – Um Maligno poderoso é um ser que mesmo sendo mau e não evoluído espiritualmente conseguiu algumas habilidades e poderes que geralmente seriam exclusivas dos evoluídos da luz, e isso pode acontecer de vários modos, ele pode tomar consciência de sua condição e mesmo sabendo que deve ser bom para evoluir, escolher ficar com os seus vícios e defeitos e tentar evoluir mesmo assim, a ter que se tornar um santo altruísta com amplos poderes, e quem consegue isso, se torna o que chamamos de demônio.
- Demônio não é qualquer espírito mal intencionado e anjo aqueles da luz?
- Não, um espírito sem luz qualquer não é nada além de um pobre coitado, um desorientado, mas se ele tiver mal e consciência, então ele é um demônio, pois não está apenas confuso e desorientado, ele escolheu seu caminho, e então se tornou um demônio.
- E você, Luna, o que você é?
- O que você acha que eu sou? – Ela me olhou séria, esperando uma resposta sincera.
Pensei um pouco, era difícil vê-la como um demônio sendo a criatura tão maravilhosa que ela era, mas era mais difícil ainda vê-la como anjo. Não contei ainda, mas em 3 anos, nossos encontros nos sonhos não se resumiram apenas a beijos e conversas, eu pude ver a sua outra face durante esse tempo, a face demoníaca, violenta, cruel. Um pequeno vício que ela passou a demonstrar a partir de certo momento foi o de tirar sangue, ela sempre carregava consigo um pequeno estilete, pedia pra me cortar só pra ver o sangue sair, não doía realmente por ser um sonho, mas ao mesmo tempo não posso dizer que era totalmente indolor, a sensação dos cortes era como uma impressão de dor, uma sugestão de dor.
- Deixa eu te cortar, amor? – Ela passava o estilete de leve na minha mão, estávamos no velho clube, encostados nas grandes que levavam a piscina, como sempre estávamos sozinhos
- Tá louca, você quer me machucar? – Senti a lâmina fria, achava que ia doer na hora, nunca fui do tipo que agüenta bem a dor de cortes, apesar de gostar de ver meu sangue, vermelhinho vermelhinho, saindo em tubo ou em uma seringa para exames.
- Não vai doer, isso aqui é um sonho, lembra? No sonho não dói, você vai gostar, e não vou cortar se você não deixar, isso eu garanto, mas deixe, por favor, juro que não dói. – Me olhou como uma criança que quer um presente, eu não podia resistir.
- Tá bom. – Aceitei, virando meu olhar para os dela, desfocando de qualquer outra visão, não queria ver quando minha carne fosse atravessada, sentia tensão, mas o fato da mão que me machucaria ser a dela me acalmava, não era como fazer um exame de sangue, e nem como ser torturado por inimigos, era mais como uma carícia agressiva, pelo menos achava que era. Ela não falou nada, apenas sorriu e deslizou aquela fina e pontuda superfície fria pela minha mão, então senti minha carne ser aberta e o líquido sair, realmente não havia doído, era apenas uma sugestão de dor, não resisti e olhei pra minha mão, o sangue saía como a água de um pia que esquece de fechar, e cobrir toda minha pele com aquele vermelho intenso. Ela olhava como uma fera para meu ferimento, como se se deleitasse completamente com a visão, e era isso que acontecia, podia perceber seus olhos brilhando enquanto o líquido derramava e caía no chão.
- Qual é a graça disso? Você só queria ver ele sair?
- É, eu queria ver como é, é da cor que eu mais gosto, vermelho, atiça meus desejos de todos os tipos, me dá uma sensação tão bom quando vejo sangue, eu não sei como tem gente que tem nojo, tem medo, que desmaia quando vê. – Ela desviou o olhar por um momento pros meus olhos, parecia muito feliz, e depois voltou à minha mão, passando o dedo no corte só pra sujá-lo.
- É, e que tipos de desejo você tem quando vê? – Eu sorri com certa malícia, pensando que ela talvez estivesse mal intencionada, e quisesse ter alguns agradáveis contatos físicos.
- Pela sua expressão você deve estar imaginando que eu esteja falando de desejos sexuais. Desculpa, mas não é isso, são outros desejos, de viver, de... de... – Ela ficou em silêncio, como se fosse dizer algo totalmente inaceitável. Me perguntei o que seria. O que poderia ser ruim e ser relacionado com sangue? A resposta era clara.
- Desejo de violência? – Já estava distraído, mas ainda sangrava muito, então quando voltei minha atenção ao machucado fechei a mão, não queria morrer seco.
- Ah, violência, é, isso me atrai, sangue me dá vontade de violência. Só, um pouco de violência me agrada.
- Por que? – Sentia que minha mão já não sangrava, a abri e olhei, já não saía nenhuma gota, a ferida estava fechada o processo de cicatrização já havia começado.
- Você adoraria bater até a morte naqueles que te infernizam quando você está acordado, não é verdade. – Pegou minha mão e segurou sobre a dela.
- Sim, seria ótimo.

Ela fez isso várias vezes, após algumas semanas, logo após a sessão de cortes, ela não disse mais nada, apertou forte minha mão e saiu andando, me levando para algum lugar, ali no nosso conhecido clube, a gente passou pelos corredores de um dos ginásios do clube, que por algum motivo estava aberto, e então chegamos a um campo de futebol de areia em que três pessoas estavam sentadas numa roda, fumavam, e soltavam bastante, pelo cheiro, estavam usando maconha. Sequer perceberam nossa presença.
- Veja só. – Ela se virou para mim e sorriu, depois soltou minha mão e foi caminhando devagar até eles, quando finalmente a viram, começaram a rir e falar coisas safadas que me deram vontade de arrancar a cabeça de cada um deles, mas antes que eu terminasse de pensar, ela começou a agir. Pegou o estilete e acertou um por um na barriga, eles não estavam exatamente com os melhores reflexos, estavam totalmente chapados, eles caíram no chão, gritando, e levaram mais golpes, corri pra ver o que acontecia, as suas roupas estavam cheias de rasgados e sangue, que saía cada vez mais, pelo formato dos cortes, ela não havia esfaqueado, mas sim feito cortes enormes nos garotos, eu não havia reparado o quanto aquele estilete era grande antes.
- O que você tá fazendo? – Eu estava muito assustado, nervoso, e meus olhos dilatados combinados com meus batimentos acelerados demonstravam isso.
- Só apreciando da violência contra aqueles que merecem. – Sua expressão era de uma alegria imensa, Começou a furar as pernas daqueles infelizes, furando, furando, rasgando,cortando, dilacerando, e eu não fazia nada além de olhar, pela primeira vez eu senti medo dela, porque logo era difícil encontrar um lugar no chão que não estivesse vermelho ou onde não se encontrasse um pedaço de carne humana, o modo como ela matou e despedaçou aqueles três nunca saiu da minha memória, como um trauma, naquele momento o meu sangue gelou, e não pensei sequer em sair correndo, só fiquei assistindo, quase paralisado, àquele massacre brutal, e não importava a quanto tempo eles estivessem mortos e nem o quanto mutilados e desfigurados estivessem, ela continuava, e fazia o trabalho do modo mais sujo, ficando toda lambuzada de sangue, e fazia tudo rindo, gargalhando alto, se divertindo ao extremo, e aquelas gargalhadas cruéis ficariam na minha memória pra sempre. Medo dela, mas não o bastante para não amá-la, ela podia ser cruel com eles, mas era boa comigo, mas o que mais temia é um dia eu fosse a vítima de sua violência. Ainda sim, minha alma gêmea, amada, adorada e idolatrada. Não foi a única vez que fez aquilo, não era seu costume, mas de vez em quando, cometia alguma espécie de massacre, não sei as vítimas eram meras criações da minha mente ou espíritos,
É, eu ainda tinha que pensar que por mais violenta ela fosse com aqueles desconhecidos desafortunados que encontrávamos em nossas românticas caminhadas, ela ainda era boa para mim, muito boa, fazer alguns cortes na mão pode ser um ato agressivo, mas não é exatamente o que um demônio faz, não, é apenas uma mania estranha, alguma espécie de fetiche não sexual. Por que cortar e ver o sangue? Ela não justificava de nenhum modo além do gosto por ver o líquido, mas quando perguntei porque ela não cortava a si mesma, ela me deu a resposta que eu menos esperava:
“- Eu estou morta, você está vivo, o sangue de vivo é bem mais vermelho, bem mais vivo, intenso, puro, é estimulante, belo, mais agradável de se ver correr, é fresco. Já faz muito tempo que eu não lembro o que estar viva, sinto atração pela vida que corre no seu sangue de alguém que tem um corpo físico intacto.
- Então você só gosta de ver meu sangue porque ele te lembra de quando você viva?
- Não, eu realmente gosto de ver sangue no geral, mas o sangue de vivo é muito melhor, porque além da sensação boa que por algum motivo eu sinto com aquele avermelhado fascinante, há a sensação de vida que vem do sangue, pois ele é a vida de toda a carne.
- Mas já que você falou disso, Luna, agora me fala, como você morreu? Há quanto tempo?
- Você não precisa saber, você precisa saber que estou aqui agora, e com você.
Eu acordei quando ela terminou a frase, todas as vezes que tentei retomar o assunto, ela desviava e às vezes se irritava, e como vê-la irritada era a última coisa que eu desejaria em sã consciência, eu desisti de descobrir isso, pelo menos por um tempo, um bom tempo.”
No mínimo ela era louca, perturbada, não sei, estranha, mas... demônio? Um anjo, que me deu a mão quando eu estava sozinho, a única que me estendeu a mão quando tudo que eu tinha diante de meus olhos era um vazio tão absoluto quanto a própria morte espiritual, o vazio de alguém que não está morto, mas que também não vive, existindo em vão, como se realmente não existisse de fato, como um maldito morto vivo, como alguém sem alma, ela me deu uma alma, e um pouco daquele sentimento doce que todos os grandes escritores almejam em toda a sua grandiosidade: o amor. Ao mesmo tempo, eu não a conhecia por completo, não sabia como teria morrido, não sabia como teria passado seus anos no plano espiritual, e muito menos quem ela era em vida, talvez sequer fosse o que dizia ser. Quantas dúvidas me atormentavam? O que ela poderia ter sido em vida? Tantas coisas, ela poderia ter sido qualquer pessoa, vivido em qualquer lugar, em qualquer época, e eu não sabia nada, ela poderia ter feito qualquer coisa por qualquer motivo, mas nenhuma dessas minhas perguntas poderia ser respondida. Mas... ainda assim, mesmo sob todos essas dúvidas, a minha resposta ainda foi aquela que meu coração desejava dar:
- Anjo.
Ela deu um sorriso amarelo e se afastou deu alguns passos para longe de mim, em silêncio, depois voltou a se virar para mim e disse:
- Está sendo sincero? – Ela estava muito séria.
- Estou.
- Tudo bem, então agora imagine que sua mão está virando vapor. – Sentou-se novamente sobre a grama.
- O que?
- É o começo do treinamento de como lidar com seu corpo espiritual, diferentemente do corpo físico, ele não tem uma forma imutável, ele pode ser controlado, além de aqui haver habilidades que você nem conseguiria imaginar.
Ergui a mão na altura dos meus olhos, com a palma virada para mim, imaginando concentradamente que cada célula que a formava evaporaria, se separaria, imaginava toda a pele se dissipando, sumindo, perdendo toda a sua densidade, virando gás. Não demorou mais de meio minuto para eu sentir uma certa leveza na palmas, mas não havia nenhuma mudança visível, apenas sentia como se ela estivesse menos pesada, realmente menos densa, era uma sensação relaxante, e esse relaxamento tomou conta do meu corpo inteiro, eu me senti leve, e acabei sorrindo involuntariamente por causa da sensação agradável, era quase como se eu flutuasse , mas nada de minha mão virar vapor. Luna agarrou minha mão repentinamente, o que quebrou minha concentração e também meu relaxamento, desviei o olhar para ela, mostrava os dentes em um sorriso empolgado.
- Se sente relaxado?
- Sim. Como eu faço pra evaporar? Demora muito pra conseguir?
- Hahaha. Não, seu bobo, você não vai conseguir evaporar, eu menti pra você pra ver se você aprende a flutuar, porque aqui no mundo espiritual a gente flutua e voa, mas esse é o treino básico pra conseguir, você precisa voar para se mover direito por aqui, as distâncias são simples como no mundo material, e muito menos você vai achar um ônibus. O princípio em voar não está em imaginar que você vira vapor, mas sim em deixar seu corpo mais leve, mais ou menos como em um balão de hélio, ele deve ficar menos denso para subir, também dá para usar a própria energia para voar, usar como combustível, mas isso é bastante avançado para o momento, primeiro apenas flutue. Sério, imagina que seu corpo está evaporando e que você está subindo.
- Certo. – Não havia o que discutir, dessa vez fechei meus olhos e juntei as mãos com os dedos entrelaçados, e me imaginei sumindo, desaparecendo no ar como fumaça, e a sensação de relaxamento voltou quase que imediatamente, aquele fluxo delicado de energia passando por dentro de mim fazia com que a sensação de leveza fosse quase completa, agora só faltava subir, imaginei-me tão leve que minha flutuaria, subiria, voaria como um balão, subindo, subindo, tão leve como uma pena em meio a uma ventania. Finalmente senti meus pés saírem do chão, e era realmente como flutuar, não como se flutua na água quando se está boiando, mas como se flutua no vazio, uma sensação maravilhosa e indiscritível que só aqueles que estão livres da restrição do corpo material terão a oportunidade de sentir, por isso. Eu subia aos poucos, como se um fio me erguesse pela cabeça, e estava cada vez mais leve, mais leve, não era difícil me concentrar, aquele agradável relaxamento acontecia naturalmente, com certa facilidade, e quando abri meus olhos, pude ver o solo bem distante de mim, e Luna me olhando lá de baixo, tão longe que tinha o tamanho de um ratinho.
Voltei ao chão instintivamente, tudo que tive que fazer imaginar a densidade voltar ao meu corpo, então toda a altura foi perdida, e o impacto de meus pés contra o chão foi tão suave que parecia que eu tinha apenas tocado levemente meus pés em um colchão de ótima qualidade, ela se reaproximou, parecia satisfeita com o resultado, pelo menos eu estava.
- Então você entendeu. É fácil, não é? No começo você precisa se concentrar, mas depois tudo acontece com naturalidade, facilmente, de acordo com seus pensamentos e intenções.
- Então basta eu pensar em algo que esse algo irá acontecer?
- Não exatamente, mas se é algo que você pode fazer, então você não terá dificuldades pra fazer, talvez tenha dificuldade se fizer de algum modo extremo, como quando for voar rápido, aí você terá que se concentrar bem, mas pra flutuar não, e qualquer espírito faz isso. Quero ver se você consegue voar agora, é mais difícil que flutuar, mas basta você se imaginar fazendo isso, pense, use o poder de sua mente, e não haverá nada que você não possa fazer.
Fiz o que ela disse, abri meus braços e me imaginei como uma ave que alça vôo com a maior facilidade, mas sem a necessidade de bater as asas, e então pude sentir meu subindo rapidamente, deixando o solo, e voei. Voei alto, e meu corpo pareceu como um grande avião de papel, sendo levado por um vento que eu não podia sentir, no ar, fiz manobras, realmente imitando uma ave, eu subia, descia, virava para os lados, e conseguia parar no ar, depois voava em linha reta o mais rápido que eu conseguia, mergulhava sobre o nada, subia na vertical como um míssil,e fazia todas as manobras que minha imaginação permitia, tudo era possível, e aquela sensação era sem dúvida a melhor que já tinha sentido na vida, era ter total liberdade, liberdade para voar, e fazer tudo que eu quisesse ou imaginasse.