Capítulo 2 - Amor Eletrônico
Caminhei com passos contados até ela, e me sentei ao seu lado, deslizando meus dedos sobre seu cabelo, pude sentir que não eram tão macios quanto antes, pareciam sebosos e duros, como se não fossem lavados há anos.
Lembrei-me dos primeiros momentos com ela. Da primeira vez, exatamente um sonho, talvez não tivesse sido apenas um sonho, não, com certeza não havia sido um simples sonho, mas muito mais, um encontro de almas destinadas uma à outra, uma magnífica experiência astral sem precedentes, incomparável. Estava eu, ali, sentado sobre a grama das longas trilhas do clube onde os alunos de minha antiga escola, exatamente três anos atrás, faziam sua educação física, pelo menos na teoria, já que a maioria passava a “aula” brincando de carteado, jogando vídeo-game ou brigando. Eu não seria exceção, me encaixando no grupo do vídeo-game, sentado abaixo de uma pequena árvore para me proteger do claríssimo sol de Brasília, olhar pra cima em Brasília é sentir uma sensação parecida com a que Moisés sentiria se tivesse olhado pro rosto de Deus: uma cegueira instantânea e ardente. Jogava um jogo no meu vídeo-game portátil, quando uma garota surgiu quase imperceptivelmente atrás de mim, se abaixou e perguntou próxima do meu ouvido:
- Isso é Castlevania?
Me assustei quando a ouvi, e quase deixei o aparelho cair, mas depois que me virei e vi seu rosto me acalmei. Oras, ela me parecia a criatura mais bela do universo, mas como eu poderia ter certeza de sua beleza se apenas meus olhos a julgavam? Era muito jovem, uns 2 anos mais nova que eu, e uns 15 centímetros a menos também, e foi a primeira vez que vi aqueles cabelos de corvo, e aqueles dois olhos amendoados da mesma cor da árvore que nos protegia do sol, um corpo sem grandes “atributos femininos” como se pode dizer, coberto por um único vestidinho negro que cobria dos joelhos aos pulsos, uma boca pequena proporcional ao nariz delicada e desproporcional aos olhos grandes que brilhavam como espelhos que refletem a luz do sol, mas sem aquela dor aguda que se forma na visão como nos espelhos de verdade. Por um momento divaguei em pensamentos enquanto a olhava, podia sentir algo diferente, não uma simples aceleração dos batimentos cardíacos, mas uma espécie de fervor que atravessava minhas veias, como milhares de multidões loucas em um tumulto, estava tumultuado por dentro, flutuando em pensamentos fantasiosos e possibilidades supostas, até que finalmente voltei à realidade e respondi.
- É sim. Você gosta?
- Não sou exatamente uma gamer, mas gosto desse jogo, quando eu era pequena eu ganhei um daqueles vídeo-games que se vende em camelô, com dezenas de jogos no cartucho, Castlevania era o melhor dos joguinhos, mas acho que era o primeiro. – Ela se sentou do meu lado, olhando pra tela.
- Esse aqui é o Symphony of the Night, dizem que é o melhor jogo da série. – Virei a tela para que ela pudesse ver melhor. - Quer tentar? – Não pude deixar de sorrir, de mostrar minha satisfação tendo o interesse de uma criatura tão adorável em minha atividade monótona e solitária.
- Quero.
- Deixa só eu salvar. – Salvei o jogo como de costume e estendi a mão com o aparelho. Ela pegou o console da minha mão com o maior cuidado, e já começou a apertar os botões e jogar, então trocamos, ela jogava e inclinava a tela para facilitar minha visão, enquanto eu a observava.
- É, parece que você já conhece os comandos. – Comentei, um pouco surpreso com a familiaridade dela com os botões, estupidamente ainda ligado ao conceito de que vídeo-game é coisa para meninos, sendo que hoje em dia até mães de família jogam.
- Bem, isso é um PSP, eu sei que é um Playstation portátil, deve ter os mesmo comandos também. – Ela sorriu, apertando os botõezinhos com seus dedos que se moviam mais rápidos do que os de um pianista profissional.
Estava tão distraído que esqueci de perguntar a mais fundamental das perguntas.
- Como você se chama?
- Luna. E você? – Não virou o olhar para mim, mantendo-se centrada no jogo.
- É um bom nome. Bem, eu sou o Artur.
Então ela pausou o jogo e sorriu para mim, e eu a vi desvanecer-se no ar como vapor, junto com todo o cenário em que nos encontrávamos, assim, acordei, e percebi que tudo não passara de um doce sonho, e que o despertador já tocava, me mandando para minhas tediosas obrigações.
Pelo resto do dia ansiei pelo momento de sono, com a única esperança de novamente me encontrar com ela, com a certeza de que ela não era apenas uma criação da minha mente, desejando com todo o meu coração que fosse real, por mais impossível que fosse, aquela gentil Luna deveria ser real. Quando dormi novamente, nos encontramos novamente, no mesmo local, mas que agora estava sob o céu noturno, um pouco avermelhado e bastante frio, as sensações eram realistas para um sonho, mas não o bastante para serem realmente tidas como realidade. Desta vez não jogamos, conversamos sobre os mais diversos assuntos, e nossa conversa fluía incrivelmente bem, e a cada par de palavras trocadas, descobríamos mais em comum um sobre o outro, e tudo parecia como destino, pois todas aquelas palavras que saíam de sua boca pequena apenas mostravam o quão perfeita ela seria ao meu ver, tínhamos em média os mesmos gostos, e especialmente os mesmos defeitos. Ela tinha uma tendência a mostrar seu pior lado, como em uma necessidade de me fazer conhecer de uma vez os seus males, para depois então, valorizar mais suas virtudes, e não hesitou em me revelar o egoísmo e a indiferença, a incapacidade de sofrer pelos outros, de ficar feliz pelos outros, de querer o bem aos outros. E seus olhos pareciam perder o brilho quando falava sobre esse assunto, sempre tão sincera que mesmo ao parecer a mais desvirtuada das criaturas, ainda me fascinava de um modo incomum, e modo que minha certeza de que ela não era apenas um sonho crescia, mas não ao ponto de ser absoluta. Acordei após contá-la sobre meus vícios, semelhantes aos apareceu dela, mas em diferentes formas de egoísmo.
Na noite seguinte ela me esperava no mesmo local, dessa vez ela vestia uma roupa diferente do vestido preto dos dias anteriores, estava vestida com um conjunto de pijama cinza que só deixava as mãos, pescoço e cabeça à mostra, as calças desciam até os pés, bem mais longas do que o necessário, embora ainda pudesse ver que usava havaianas amarelas nos pés,. Me cumprimentou e me chamou para segui-la, obedeci sem hesitar, e fui levado até o final do clube, nas limitações da cerca do extremo ao sul, onde grandes árvores frutíferas cresciam, era noite, e o céu estava negro, sem uma única estrela à vista, e a lua brilhando cheia e soberana, iluminando todas as escuras trilhas daquele clube. Debaixo da árvore, ela me pegou pela mão e me beijou, não o contrário, e me senti como se em um único momento eu entendesse todo o sentido da vida, do mundo, o que é a felicidade, e, especialmente, o que é o amor. Meus olhos estavam fechados, e tudo que sentia eram seus lábios e sua mão que deslizava por minha nuca, curiosa, mas aquela sensação celestial que sua boca me proporcionava aos poucos se dissipava enquanto eu despertava, até que me encontrei, lamentavelmente, sozinho em minha cama. Mas aquela foi a primeira noite em que a toquei como uma mulher, e nada menos do que isso. Na noite seguinte ela viria a me contar que era um espírito, a alma de uma pessoa morta que me acompanhava, por algum motivo que até hoje não compreendo, aceitei aquilo com total naturalidade, talvez porque ainda achasse e suspeitasse de que ela não passava de um sonho, embora ainda torcesse para que ela fosse o que dizia que era: uma criatura morta, mas real, não uma criação da minha mente.
Muitas e muitas noites se passariam até o dia em que entrei em coma, quando nossos encontros deixaram de ser meros sonhos.
- Iremos passear? Preciso conhecer esse mundo antes de fazer outra coisa.
- Isso é óbvio. Mas sabe o que faremos depois que você aprender como lidar com o mundo espiritual?
- Não. É óbvio que não sei. – Tirei os dedos dos cabelos dela, já estavam engordurados, o que me surpreendeu e foi um pouco desagradável, mas não cometi a grosseria de comentar isso.
- Seria injusto que eu dissesse o nosso objetivo na primeira pessoa do singular. Não seria nosso, mas apenas meu. Não faria sentido, então só quero que você me diga, e essa não é uma pergunta retórica: pra onde um espírito vai logo após a morte?
- Para o lugar equivalente aos seus sentimentos e sua energia, certo? Se é uma pessoa rancorosa e infeliz ela vai para onde seus semelhantes estão, se for uma pessoa feliz e generosa, ela se encontrará onde os felizes generosos estão também. – Eu não tinha certeza, mas pelo que já tinha lido em vida, seria um processo parecido.
- É, assim mesmo. E agora nós estamos em sua mente, um lugar isolado, eu sou bastante antiga e já tenho controle o bastante para me transportar pelo mundo espiritual com facilidade, aqui não há nenhum espírito, pois estamos em um local distante do resto universo, você não imaginaria quantos lugares existem, mas ficaria surpreso em ver o quanto os espíritos se concentram em sua maioria em alguns poucos lugares. E não há lugar mais impenetrável que a mente de um vivo, mas há um momento em que um espírito pode entrar em uma mente: durante os sonhos, mas nesses casos, tudo que acontecer será uma ilusão, apenas imaginado pela mente, diferente do que estamos tendo agora, que é real. Por isso, se você morre em um sonho, você continua vivo no mundo real, e é por isso que apareci em seus sonhos, pois era o único modo de falar com você diretamente, e fazer você me deixar entrar.
- Entrar em minha mente?
- Sim, um espírito só pode entrar e habitar em uma mente se ele for convidado.
Lembrei daquela cena no nosso sétimo encontro por sonho, Luna me perguntou: - Deixa eu entrar na sua mente? Deixa eu fazer parte de você? Sermos como uma só alma. A resposta havia sido quase instantânea: Sim.
- Eu me lembro.
- Mas chega de conversa, nós precisamos começar seu treinamento agora mesmo.
- E o S? Ele disse que me ajudaria.
- Eu não sei quem é S, não podemos confiar nele. Mas em mim você pode confiar, pois não deixarei que nada de ruim aconteça a você. Então comecemos imediatamente. – A voz dela soou dura e áspera, autoritária e forte, agora eu podia ver o quão forte minha gentil Luna era na realidade.
Concordei com a cabeça, sem falar nada, ela seria minha mestra.
- Comecemos com alguns conceitos. Existe freqüência, mas também existe a intensidade. Fazendo uma analogia de modo que você, conhecedor da física básica, entenda: A freqüência é a velocidade da vibração de um espírito, e reflete seus sentimentos e a pureza da sua alma, que em termos mais simples pode ser descrita como a grandeza que define se você é bom ou mau, um espírito de luz ou maligno. Quanto maior a freqüência, melhor você é, e quanto menor, pior, se sua freqüência for próxima de 0 hertz, você é praticamente uma massa de maldade que perdeu qualquer resquício de amor, bondade ou felicidade. Já um com espírito com uma altíssima freqüência é um exemplo de felicidade e bons sentimentos, especialmente o amor, o maior dos sentimentos de luz, resumindo, a freqüência define que tipo de energia o indivíduo tem, boa ou ruim. Agora falando de intensidade, ou densidade se preferir, é a quantidade de energia de fato, enquanto a intensidade define a qualidade, a intensidade define a quantidade, um conceito fácil de explicar, simplesmente quanta energia você tem. Espíritos evoluídos são os que tem maior freqüência, e geralmente também tem maior intensidade, mas isso não é uma regra, pois existem seres de baixíssima densidade que tem uma grande quantidade de energia, e esses seres são o maior risco que existe no mundo espiritual, pois são o que nós podemos chamar de Malignos Poderosos. – Ela se calou, respirou fundo e fechou os olhos, parecendo cansada de tanto falar, eu apenas a observei, sem falar nada, estava apenas a ouvidos, e quanto mais ouvia, mais queria ouvir, pois a cada nova informação, um grande leque de explicações era necessário.
- Continuando. – Ela abriu os olhos novamente pra falar, me fitando atentamente. – Um Maligno poderoso é um ser que mesmo sendo mau e não evoluído espiritualmente conseguiu algumas habilidades e poderes que geralmente seriam exclusivas dos evoluídos da luz, e isso pode acontecer de vários modos, ele pode tomar consciência de sua condição e mesmo sabendo que deve ser bom para evoluir, escolher ficar com os seus vícios e defeitos e tentar evoluir mesmo assim, a ter que se tornar um santo altruísta com amplos poderes, e quem consegue isso, se torna o que chamamos de demônio.
- Demônio não é qualquer espírito mal intencionado e anjo aqueles da luz?
- Não, um espírito sem luz qualquer não é nada além de um pobre coitado, um desorientado, mas se ele tiver mal e consciência, então ele é um demônio, pois não está apenas confuso e desorientado, ele escolheu seu caminho, e então se tornou um demônio.
- E você, Luna, o que você é?
- O que você acha que eu sou? – Ela me olhou séria, esperando uma resposta sincera.
Pensei um pouco, era difícil vê-la como um demônio sendo a criatura tão maravilhosa que ela era, mas era mais difícil ainda vê-la como anjo. Não contei ainda, mas em 3 anos, nossos encontros nos sonhos não se resumiram apenas a beijos e conversas, eu pude ver a sua outra face durante esse tempo, a face demoníaca, violenta, cruel. Um pequeno vício que ela passou a demonstrar a partir de certo momento foi o de tirar sangue, ela sempre carregava consigo um pequeno estilete, pedia pra me cortar só pra ver o sangue sair, não doía realmente por ser um sonho, mas ao mesmo tempo não posso dizer que era totalmente indolor, a sensação dos cortes era como uma impressão de dor, uma sugestão de dor.
- Deixa eu te cortar, amor? – Ela passava o estilete de leve na minha mão, estávamos no velho clube, encostados nas grandes que levavam a piscina, como sempre estávamos sozinhos
- Tá louca, você quer me machucar? – Senti a lâmina fria, achava que ia doer na hora, nunca fui do tipo que agüenta bem a dor de cortes, apesar de gostar de ver meu sangue, vermelhinho vermelhinho, saindo em tubo ou em uma seringa para exames.
- Não vai doer, isso aqui é um sonho, lembra? No sonho não dói, você vai gostar, e não vou cortar se você não deixar, isso eu garanto, mas deixe, por favor, juro que não dói. – Me olhou como uma criança que quer um presente, eu não podia resistir.
- Tá bom. – Aceitei, virando meu olhar para os dela, desfocando de qualquer outra visão, não queria ver quando minha carne fosse atravessada, sentia tensão, mas o fato da mão que me machucaria ser a dela me acalmava, não era como fazer um exame de sangue, e nem como ser torturado por inimigos, era mais como uma carícia agressiva, pelo menos achava que era. Ela não falou nada, apenas sorriu e deslizou aquela fina e pontuda superfície fria pela minha mão, então senti minha carne ser aberta e o líquido sair, realmente não havia doído, era apenas uma sugestão de dor, não resisti e olhei pra minha mão, o sangue saía como a água de um pia que esquece de fechar, e cobrir toda minha pele com aquele vermelho intenso. Ela olhava como uma fera para meu ferimento, como se se deleitasse completamente com a visão, e era isso que acontecia, podia perceber seus olhos brilhando enquanto o líquido derramava e caía no chão.
- Qual é a graça disso? Você só queria ver ele sair?
- É, eu queria ver como é, é da cor que eu mais gosto, vermelho, atiça meus desejos de todos os tipos, me dá uma sensação tão bom quando vejo sangue, eu não sei como tem gente que tem nojo, tem medo, que desmaia quando vê. – Ela desviou o olhar por um momento pros meus olhos, parecia muito feliz, e depois voltou à minha mão, passando o dedo no corte só pra sujá-lo.
- É, e que tipos de desejo você tem quando vê? – Eu sorri com certa malícia, pensando que ela talvez estivesse mal intencionada, e quisesse ter alguns agradáveis contatos físicos.
- Pela sua expressão você deve estar imaginando que eu esteja falando de desejos sexuais. Desculpa, mas não é isso, são outros desejos, de viver, de... de... – Ela ficou em silêncio, como se fosse dizer algo totalmente inaceitável. Me perguntei o que seria. O que poderia ser ruim e ser relacionado com sangue? A resposta era clara.
- Desejo de violência? – Já estava distraído, mas ainda sangrava muito, então quando voltei minha atenção ao machucado fechei a mão, não queria morrer seco.
- Ah, violência, é, isso me atrai, sangue me dá vontade de violência. Só, um pouco de violência me agrada.
- Por que? – Sentia que minha mão já não sangrava, a abri e olhei, já não saía nenhuma gota, a ferida estava fechada o processo de cicatrização já havia começado.
- Você adoraria bater até a morte naqueles que te infernizam quando você está acordado, não é verdade. – Pegou minha mão e segurou sobre a dela.
- Sim, seria ótimo.
Ela fez isso várias vezes, após algumas semanas, logo após a sessão de cortes, ela não disse mais nada, apertou forte minha mão e saiu andando, me levando para algum lugar, ali no nosso conhecido clube, a gente passou pelos corredores de um dos ginásios do clube, que por algum motivo estava aberto, e então chegamos a um campo de futebol de areia em que três pessoas estavam sentadas numa roda, fumavam, e soltavam bastante, pelo cheiro, estavam usando maconha. Sequer perceberam nossa presença.
- Veja só. – Ela se virou para mim e sorriu, depois soltou minha mão e foi caminhando devagar até eles, quando finalmente a viram, começaram a rir e falar coisas safadas que me deram vontade de arrancar a cabeça de cada um deles, mas antes que eu terminasse de pensar, ela começou a agir. Pegou o estilete e acertou um por um na barriga, eles não estavam exatamente com os melhores reflexos, estavam totalmente chapados, eles caíram no chão, gritando, e levaram mais golpes, corri pra ver o que acontecia, as suas roupas estavam cheias de rasgados e sangue, que saía cada vez mais, pelo formato dos cortes, ela não havia esfaqueado, mas sim feito cortes enormes nos garotos, eu não havia reparado o quanto aquele estilete era grande antes.
- O que você tá fazendo? – Eu estava muito assustado, nervoso, e meus olhos dilatados combinados com meus batimentos acelerados demonstravam isso.
- Só apreciando da violência contra aqueles que merecem. – Sua expressão era de uma alegria imensa, Começou a furar as pernas daqueles infelizes, furando, furando, rasgando,cortando, dilacerando, e eu não fazia nada além de olhar, pela primeira vez eu senti medo dela, porque logo era difícil encontrar um lugar no chão que não estivesse vermelho ou onde não se encontrasse um pedaço de carne humana, o modo como ela matou e despedaçou aqueles três nunca saiu da minha memória, como um trauma, naquele momento o meu sangue gelou, e não pensei sequer em sair correndo, só fiquei assistindo, quase paralisado, àquele massacre brutal, e não importava a quanto tempo eles estivessem mortos e nem o quanto mutilados e desfigurados estivessem, ela continuava, e fazia o trabalho do modo mais sujo, ficando toda lambuzada de sangue, e fazia tudo rindo, gargalhando alto, se divertindo ao extremo, e aquelas gargalhadas cruéis ficariam na minha memória pra sempre. Medo dela, mas não o bastante para não amá-la, ela podia ser cruel com eles, mas era boa comigo, mas o que mais temia é um dia eu fosse a vítima de sua violência. Ainda sim, minha alma gêmea, amada, adorada e idolatrada. Não foi a única vez que fez aquilo, não era seu costume, mas de vez em quando, cometia alguma espécie de massacre, não sei as vítimas eram meras criações da minha mente ou espíritos,
É, eu ainda tinha que pensar que por mais violenta ela fosse com aqueles desconhecidos desafortunados que encontrávamos em nossas românticas caminhadas, ela ainda era boa para mim, muito boa, fazer alguns cortes na mão pode ser um ato agressivo, mas não é exatamente o que um demônio faz, não, é apenas uma mania estranha, alguma espécie de fetiche não sexual. Por que cortar e ver o sangue? Ela não justificava de nenhum modo além do gosto por ver o líquido, mas quando perguntei porque ela não cortava a si mesma, ela me deu a resposta que eu menos esperava:
“- Eu estou morta, você está vivo, o sangue de vivo é bem mais vermelho, bem mais vivo, intenso, puro, é estimulante, belo, mais agradável de se ver correr, é fresco. Já faz muito tempo que eu não lembro o que estar viva, sinto atração pela vida que corre no seu sangue de alguém que tem um corpo físico intacto.
- Então você só gosta de ver meu sangue porque ele te lembra de quando você viva?
- Não, eu realmente gosto de ver sangue no geral, mas o sangue de vivo é muito melhor, porque além da sensação boa que por algum motivo eu sinto com aquele avermelhado fascinante, há a sensação de vida que vem do sangue, pois ele é a vida de toda a carne.
- Mas já que você falou disso, Luna, agora me fala, como você morreu? Há quanto tempo?
- Você não precisa saber, você precisa saber que estou aqui agora, e com você.
Eu acordei quando ela terminou a frase, todas as vezes que tentei retomar o assunto, ela desviava e às vezes se irritava, e como vê-la irritada era a última coisa que eu desejaria em sã consciência, eu desisti de descobrir isso, pelo menos por um tempo, um bom tempo.”
No mínimo ela era louca, perturbada, não sei, estranha, mas... demônio? Um anjo, que me deu a mão quando eu estava sozinho, a única que me estendeu a mão quando tudo que eu tinha diante de meus olhos era um vazio tão absoluto quanto a própria morte espiritual, o vazio de alguém que não está morto, mas que também não vive, existindo em vão, como se realmente não existisse de fato, como um maldito morto vivo, como alguém sem alma, ela me deu uma alma, e um pouco daquele sentimento doce que todos os grandes escritores almejam em toda a sua grandiosidade: o amor. Ao mesmo tempo, eu não a conhecia por completo, não sabia como teria morrido, não sabia como teria passado seus anos no plano espiritual, e muito menos quem ela era em vida, talvez sequer fosse o que dizia ser. Quantas dúvidas me atormentavam? O que ela poderia ter sido em vida? Tantas coisas, ela poderia ter sido qualquer pessoa, vivido em qualquer lugar, em qualquer época, e eu não sabia nada, ela poderia ter feito qualquer coisa por qualquer motivo, mas nenhuma dessas minhas perguntas poderia ser respondida. Mas... ainda assim, mesmo sob todos essas dúvidas, a minha resposta ainda foi aquela que meu coração desejava dar:
- Anjo.
Ela deu um sorriso amarelo e se afastou deu alguns passos para longe de mim, em silêncio, depois voltou a se virar para mim e disse:
- Está sendo sincero? – Ela estava muito séria.
- Estou.
- Tudo bem, então agora imagine que sua mão está virando vapor. – Sentou-se novamente sobre a grama.
- O que?
- É o começo do treinamento de como lidar com seu corpo espiritual, diferentemente do corpo físico, ele não tem uma forma imutável, ele pode ser controlado, além de aqui haver habilidades que você nem conseguiria imaginar.
Ergui a mão na altura dos meus olhos, com a palma virada para mim, imaginando concentradamente que cada célula que a formava evaporaria, se separaria, imaginava toda a pele se dissipando, sumindo, perdendo toda a sua densidade, virando gás. Não demorou mais de meio minuto para eu sentir uma certa leveza na palmas, mas não havia nenhuma mudança visível, apenas sentia como se ela estivesse menos pesada, realmente menos densa, era uma sensação relaxante, e esse relaxamento tomou conta do meu corpo inteiro, eu me senti leve, e acabei sorrindo involuntariamente por causa da sensação agradável, era quase como se eu flutuasse , mas nada de minha mão virar vapor. Luna agarrou minha mão repentinamente, o que quebrou minha concentração e também meu relaxamento, desviei o olhar para ela, mostrava os dentes em um sorriso empolgado.
- Se sente relaxado?
- Sim. Como eu faço pra evaporar? Demora muito pra conseguir?
- Hahaha. Não, seu bobo, você não vai conseguir evaporar, eu menti pra você pra ver se você aprende a flutuar, porque aqui no mundo espiritual a gente flutua e voa, mas esse é o treino básico pra conseguir, você precisa voar para se mover direito por aqui, as distâncias são simples como no mundo material, e muito menos você vai achar um ônibus. O princípio em voar não está em imaginar que você vira vapor, mas sim em deixar seu corpo mais leve, mais ou menos como em um balão de hélio, ele deve ficar menos denso para subir, também dá para usar a própria energia para voar, usar como combustível, mas isso é bastante avançado para o momento, primeiro apenas flutue. Sério, imagina que seu corpo está evaporando e que você está subindo.
- Certo. – Não havia o que discutir, dessa vez fechei meus olhos e juntei as mãos com os dedos entrelaçados, e me imaginei sumindo, desaparecendo no ar como fumaça, e a sensação de relaxamento voltou quase que imediatamente, aquele fluxo delicado de energia passando por dentro de mim fazia com que a sensação de leveza fosse quase completa, agora só faltava subir, imaginei-me tão leve que minha flutuaria, subiria, voaria como um balão, subindo, subindo, tão leve como uma pena em meio a uma ventania. Finalmente senti meus pés saírem do chão, e era realmente como flutuar, não como se flutua na água quando se está boiando, mas como se flutua no vazio, uma sensação maravilhosa e indiscritível que só aqueles que estão livres da restrição do corpo material terão a oportunidade de sentir, por isso. Eu subia aos poucos, como se um fio me erguesse pela cabeça, e estava cada vez mais leve, mais leve, não era difícil me concentrar, aquele agradável relaxamento acontecia naturalmente, com certa facilidade, e quando abri meus olhos, pude ver o solo bem distante de mim, e Luna me olhando lá de baixo, tão longe que tinha o tamanho de um ratinho.
Voltei ao chão instintivamente, tudo que tive que fazer imaginar a densidade voltar ao meu corpo, então toda a altura foi perdida, e o impacto de meus pés contra o chão foi tão suave que parecia que eu tinha apenas tocado levemente meus pés em um colchão de ótima qualidade, ela se reaproximou, parecia satisfeita com o resultado, pelo menos eu estava.
- Então você entendeu. É fácil, não é? No começo você precisa se concentrar, mas depois tudo acontece com naturalidade, facilmente, de acordo com seus pensamentos e intenções.
- Então basta eu pensar em algo que esse algo irá acontecer?
- Não exatamente, mas se é algo que você pode fazer, então você não terá dificuldades pra fazer, talvez tenha dificuldade se fizer de algum modo extremo, como quando for voar rápido, aí você terá que se concentrar bem, mas pra flutuar não, e qualquer espírito faz isso. Quero ver se você consegue voar agora, é mais difícil que flutuar, mas basta você se imaginar fazendo isso, pense, use o poder de sua mente, e não haverá nada que você não possa fazer.
Fiz o que ela disse, abri meus braços e me imaginei como uma ave que alça vôo com a maior facilidade, mas sem a necessidade de bater as asas, e então pude sentir meu subindo rapidamente, deixando o solo, e voei. Voei alto, e meu corpo pareceu como um grande avião de papel, sendo levado por um vento que eu não podia sentir, no ar, fiz manobras, realmente imitando uma ave, eu subia, descia, virava para os lados, e conseguia parar no ar, depois voava em linha reta o mais rápido que eu conseguia, mergulhava sobre o nada, subia na vertical como um míssil,e fazia todas as manobras que minha imaginação permitia, tudo era possível, e aquela sensação era sem dúvida a melhor que já tinha sentido na vida, era ter total liberdade, liberdade para voar, e fazer tudo que eu quisesse ou imaginasse.
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