
A Convidada
Era uma noite extremamente fria, estava deitado na minha cama debaixo dos cobertores, procurando me esquentar enquanto esfregava os pés um no outros, o céu podia ser visto através da cortina, avermelhado, enevoado, mas coma lua crescente bem visível diante de meus olhos. Estava sem sono, não sabia exatamente porque, mas estava com minha mente distante, eu via a minha gentil amiga imaginária, uma menina de 12 anos com cabelos tão perfeitamente negros que pareciam pintados, e grandes olhos castanhos que me atraíam aos mais profundos poços e mares. Bem, não era exatamente uma “amiga” imaginária, algo mais, algo criado pela imaginação de um solteiro romântico. Me levantei da cama, abri a porta do quarto e fui até o banheiro, liguei a luz, fiz o que tinha que fazer, lavei as mãos, e então fiz a grande besteira. Três horas da manhã, sentia um sono imenso, olhos cansados e uma distração profunda em meus próprios pensamentos, foi quando sem querer, meu dedo molhado não se encaixou no interruptor, mas sim na tomada abaixo dele, me eletrocutando, para minha sorte, o piso também estava molhado, e tudo que senti foi algo estourar, provavelmente minha mão.
Acordei em uma cama de hospital, tive uma estranha sensação de leveza quando abri os olhos,e então tentei mover minha cabeça, o medo perfurou meu peito quando vi que flutuei sobre meu próprio corpo, me desesperei a comecei a me mover confusamente, sem nenhum controle, enquanto minha “cabeça” girava e minha boca soltava gritos que não emitiam nenhum som. Achava ser um pesadelo, só podia ser um maldito pesadelo, até que vi um homem do lado da minha cama, um homem desconhecido, que tinha a minha aparência, me olhava com um sorriso zombeteiro.
- Prazer, pode me chamar de S, estou aqui para te ajudar a conhecer o mundo astral. Você não está morto como deve estar imaginando, mas apenas em coma, eu estive te acompanhando em vida com grande interesse, como um anjo da guarda, e agora continuarei te guardando até que possa voltar à consciência em seu corpo físico.
- Do que você está falando? S é um nome? Se me guardou, por que deixou isso acontecer? E por que raios vocês tem a minha cara? – Retruquei tentando ir até o meu sósia, mas só consegui recuar no ar, ficando com mais raiva do que já estava
- Eu posso tomar qualquer forma humana, tomei a sua para que se sinta em um ambiente conhecido, mas mudarei assim que formos amigos. Aliás, não quer ajuda para aprender a se mover? S não é um nome, é minha inicial, um dia te conto o verdadeiro.
- Sim, ia ser muito útil que me ensine a me mover.
- Bem, aposto que você está tentando mover os braços, não é? Haha, veja, você tem que se mover só com o pensamento, imaginar que está se movendo pra onde quer, entende?
- Vou tentar. – Me concentrei no movimento e consegui flutuar até o homem, e fica de pé na frente dele, em uma posição bem mais confortável do que a de flutuar sem direção.
- Você deve estar se perguntando: Por que quero te ajudar?
- Na verdade duvido de suas boas intenções, mas pergunto sim.
- Eu também duvidaria se fosse comigo. Artur, tenho desejos e você está incluso neles, vejo em você um grande potencial, e creio que possa ser útil para mim e para o universo no geral. E também acho que vá gostar de conhecer os vários planos.
- Você está apenas fazendo rodeios. O que quer afinal?
- O que quero? Bem, serei direto então, você é um humano em coma, você tem o “potencial” e a “vontade”, sua mente é aberta a novas idéias, você acredita no sobrenatural mas despreza dogmas.
- Fale logo o que quer. - Perdi a paciência
- Não, eu não te falarei meus objetivos, só deixo claro que tenho interesse no seu conhecimento do Mundo Astral. Agora vamos a um lugar melhor. – Ele pegou em minha mão e estalou os dedos, e no instante seguinte estávamos em um lugar diferente.
Não estávamos mais no hospital, todas as ligações ao mundo físico haviam sido deixadas para trás, e agora nos encontrávamos em um campo aberto de gramíneas, onde o céu se mantinha cinza e estranhamente sem o mínimo vestígio do Sol, mas o que mais me chamou atenção foi ver um balanço como o único objeto no cenário que não era grama, e nesse balanço a minha gentil Luna se balançava e ria, me olhando com aqueles enormes olhos castanhos que tanto amo. Ela era real?
- Luna? – Perguntei a ela, sem acreditar, e em seguida virei meu olhar para S. – O que você fez? Está controlando minha percepção? Está me usando? Ela não existe.
- Não, se você soubesse onde estamos: na sua mente. Esta menininha é uma criação da sua mente, não é? Então ela habita aqui dentro.
Luna desceu do balanço e caminhou até mim, me dando o mais terno dos abraços, e sussurrando com um tom excessivamente infantil:
- Você morreu e veio me fazer companhia?
Foi bom saber que ela não me confundiria com um sósia exatamente igual na parte física.
- O que ela disse? – Os olhos de S se expandiram de surpresa com a frase.
- Eu disse: Você morreu e veio me fazer companhia? – Ela virou o olhar para minha cópia.
- Ela não é uma criação da sua mente, não é? – S se sentou sobre o gramado, com as pernas cruzadas, olhava para nós com interrogações nos olhos.
- Não sei, você é? – Olhei pros olhos da minha tão adorada, torcendo com todo o meu ser que a resposta fosse não, e que ela fosse real, para que fosse minha de verdade, ela parecia tão doce e gentil em cada traço facial que era difícil imaginar que não fosse de verdade.
- Não, eu não sou. Por que seria?
- Então o que você é?
Ela me soltou e caminhou em passos curtos até S, mudando sua expressão imediatamente para algo que poderia facilmente ser descrito como “rosto de guerra”, de onde eu estava, parecia que os olhos dela haviam ficado um pouco menores, e a carne das bochechas murchado, como em alguém que está morrendo de fome.
- Eu sou um espírito, assim como você, Artur me alojou por aqui e agora vivo aqui nos pensamentos dele. Ele pensava que eu era imaginária, mas não sou, eu era uma alma perdida e infeliz, solitária, maldita, e ele também, uma pessoa viva infeliz, solitária, aparentemente maldita, e então o encontrei, com tantas coisas em comum comigo, e quis estar com ele, assim passei a segui-lo. Com o tempo ele foi podendo me sentir, me conhecer, sonhar comigo, me imaginar, soube meu nome, minha aparência, minha personalidade, sempre pensando que eu era uma amiga imaginária criada pelos seus pensamentos, ele foi me assimilando até eu poder entrar na sua mente, quando ele também me amou, assim como o amo. Nos encontramos toda as noites em nossos sonhos, ele me encontra em todos os seus pensamentos, e eu o encontro em todos os pensamentos dele, eram nossos encontros, nossos eternos encontros, pensamentos, sonhos... e agora estamos aqui, definitivamente juntos, pois não é um espírito e um corpo mais, são agora dois espíritos. Mas agora que me expliquei, eu é que quero saber, quem é você? E por que invade a nossa morada? – Ela discursou, devo confessar que nunca havia me sentido tão querido por uma mulher até aquele dia, mesmo sendo uma morta, Luna era mais perfeita do que qualquer coisa que minha imaginação pudesse fazer, eu até deveria ficar bravo por ter tido minha imaginação manipulada para criar o modelo de Luna, mulher perfeita, semelhante à do espírito adorável que me acompanhava sem eu saber, mas só consegui dar atenção à parte em que ela se dedicou para obter minha afinidade, uma forma diferente de amor que eu vivia: Ela me escolheu, e isso era o importante.
- Eu sou S, seu amigo está em coma, mas não tenho mais o que fazer por aqui por enquanto. - S sorriu com deboche, ele me irritava, e sumiu repentinamente, como se evaporasse.
- Onde ele foi? - Eu estava mais confuso que minha companheira.
- Espíritos se movem com maior facilidade que humanos, ele simplesmente foi embora, se transportou pra longe.
- E o que faremos agora? - Voltei a me aproximar dela, e a envolvi em meus braços, o corpo dela era frio apesar de ser o mais agradável que já tive a alegria de tocar.
- Não é assim que te quero, primeiro eu preciso que você esteja do jeito que eu desejo, do jeito que você precisa ser para sobreviver à vida por aqui, nós não estamos no céu, aqui é como o mundo real, e é tão perigoso quanto. Seu espírito tem potencial, você é diferente de tantas almas comuns que não se destacam em nada, mas você não tem usado esse potencial corretamente. Eu te farei forte, para que juntos possamos vencer em nossas jornadas.
- E como fará isso?
- Pode doer um pouquinho.
Eu senti minha a mesma coisa que senti antes de entrar em coma, mas dessa vez veio com intensidade total, elétrons corriam pela minha mão e eu podia sentir as leis da física em prática, a transformação de energia potencial armazenada em energia térmica que iniciava um desagradável processo de fritura no meu braço. Comecei a gritar sem disfarçar a dor terrível que sentia, e não conseguir me afastar de Luna, como se estivesse com o dedo grudado na tomada. Não entendia como eu ainda sentia aquelas sensações físicas como dor, calor e choque, ainda havia muito para entender sobre o plano astral.
- Pára, o que você tá fazendo? - Sentia meu corpo inteiro tremer com os elétrons que corriam em cada "célula" que me formava. A partir deste momento, narrarei grande parte dos acontecimentos que vivi no plano espiritual com os termos utilizados para o plano material, para facilitar a compreensão e tornar este relato mais objetivo. Enfim, a sensação era de estar sendo realmente frito vivo, não cozido, pois a sensação era mais parecida com óleo quente do que água fervente.
- Meu amor, isso é só uma ilusão. - Ela olhou bem meus olhos e pude ver a sombra de um reflexo avermelhado nas profundezas de seu olhar penetrante, e então o choque parou, me joguei sobre o chão, colocando meu rosto sobre a grama, tinha a mesma consistência da grama real, e o mesmo cheiro, comecei a acreditar que não haveriam diferenças entre aquele mundo e ao qual estava acostumado.
- Você está me testando? - Esfreguei bem o rosto naquela grama que parecia um confortável travesseiro, não conseguia sentir raiva dela mesmo após sentir a maior da minha vida, devia ser esse o objetivo de minha tão adorada, pois por mais doloroso que tivesse sido a sensação, eu havia resistido como nunca antes teria feito. Mas apenas porque a dor veio das mãos delas? Não é verdade que tapa de amor não dói, mas de fato dói menos, ou parecer doer menos.
- Não, para ser um teste você precisaria ter liberdade de escolha, escolher entre agüentar ou não, mas quando eu te imponho uma ilusão sem que você tenha a possibilidade de escapar, não há escolha, então não há teste, porém há aprendizado, pois você aprende com a dor que sente. – Se ajoelhou a minha frente e passou seus dedos macios pelo meu cabelo duro, eram gentis e agradáveis, a mesma mão que feria era aquela que acariciava.
- Hum, então continua porque eu estou gostando dessa sua mão.
- Quer um beijo também? - A voz dela soava como carícias aos meus ouvidos.
- Quero. – Levantei meu rosto, ela me puxou e eu me sentei, subiu no meu colo e colou os lábios nos meus, me beijou como um anjo caído do monte mais alto de um paraíso proibido aos mortais, um anjo que eu podia sentir naquele momento colado em mim, com movimentos tão gentis que me seduziam a ponto de estar tão cego que sequer repararia se o universo pegasse fogo ou todos os demônios existentes chegassem gritando hinos de guerra, só podia sentir aquele beijo doce que eu retribuía com religiosidade, devoto ao meu profundo amor por Luna. Não demorou para que afastasse os lábios dos meus e então senti meus lábios arderem suavemente, como se tivesse passado pimenta, e ela me olhou séria.
- Você me acha bonita?
- Acho.
- Por que você me ama?
- Porque você me entende, você é como eu, você é forte, você é linda, e você é só minha, não preciso te dividir com ninguém, absolutamente ninguém, você é perfeita, você é imortal, você é eterna, é a personificação de um perfeito amor eterno como nas histórias.
- E o que você seria capaz de fazer por mim?
Tive que pensar para responder. Quantas coisas eu faria por ela? Certeza de que muitas. Sofrer? Com certeza. Matar? Sem nenhuma dúvida... morrer? Como eu poderia apreciar de sua companhia se estivesse morto? Só se morresse apenas em meu corpo mortal, mas minha alma...
- Morreria fisicamente.
- Sacrificaria sua vida mortal por mim então? Para nossas almas ficarem juntas pra sempre?
- Sim. - Não pensei muito para responder, minha vida terrena não era exatamente o ideal de perfeição, mas meu amor por ela era... perfeito, completo.
- E morreria eternamente? – Os olhos dela pareceram um pouco maiores nesse instante.
- E como eu poderia ter sua companhia? – Passei minha mão por seus cabelos negros de corvo, queria tocá-la ao máximo e em todo momento em que tivesse oportunidade, “lembre-se de morrer”, aproveite a vida, creio que essa regra se aplique a almas também, então... por que não aproveitá-la enquanto ainda existo?
- Se você me amar realmente, não amar apenas minha companhia, será capaz de morrer por mim, pelo meu bem, pensará em mim antes de pensar em você. Não se sente assim?
- Acho que nunca me senti assim, eu sou egoísta e só penso em mim mesmo, mas eu não amo a sua companhia apenas, seria mentira de minha parte dizer que não sei a diferença entre amar a pessoa e amar a companhia, mas não me imagino perdendo minha existência por alguém, mesmo por você. – Olhei para o chão com certa vergonha, temendo talvez que ela me deixasse por causa da resposta, o que faria com que me arrependesse terrivelmente de não ter dito ser capaz de morrer, e mesmo morrido por ela naquele momento.
- Tudo bem, não é sua obrigação. Mas eu morreria com certeza por você, eternamente, porque você é a primeira pessoa que se importou por mim nesse e no outro mundo, a única pessoa que realmente preencheu minha solidão aparentemente eterna, mesmo que não me ame o bastante pra morrer por mim, você ainda é o único bem que tive em toda minha existência, e eu não poderia existir sem você. – Ela se afastou alguns metros de mim e se deitou de bruços na grama, apoiando o rosto sobre os braços e fechando seus olhos como se fosse dormir, eu iria abrir a boca quando ela falou antes. – Então... Você sabe o que a gente vai fazer agora que estamos juntos na pós vida?
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