sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Divina Tragédia - Parte 3



Capítulo 3 - No Desconhecido


Quando voltei ao solo, depois de um tempo que eu desconheço, pois com o prazer do voo, e felicidade, felicidade de ter a liberdade total e se entregar a ela, tudo isso fez com que qualquer noção de tempo desaparecesse, talvez horas tivessem parecido segundos, ou segundos horas, quem sabe.
- Eu consegui!
Luna correu até mim e me abraçou com muita força, força essa que eu nem imaginava que ela tivesse.
- Sim, você conseguiu, agora já sabe como se virar por aqui, você precisa fazer tudo do mesmo modo que você voou, agora precisamos descobrir quais são seus dons. - Beijou meu rosto e me soltou, se sentando na cama com as pernas cruzadas.
- O que são dons? - Me sentei de frente pra ela.
- Veja isso, e não fale nada, apenas veja. - Ela me estendeu a palma da mão, devíamos estar a meio metro de distância um do outro. Olhei para a mão, sem compreender o que ela queria, curioso, ansioso, foi então que vi algumas pequenas bolhas se formando na sua pele, como pequenas inflamações, me senti tentado a perguntar o que estava acontecendo, mas queria seguir seus comandos de silêncio, talvez fossem realmente importantes para aquilo que ela intencionava. As bolhas foram crescendo na vertical, subindo sem parar de um modo realmente assustador, não pareciam feitas de água ou pus, mas de carne maciça, o que eu vi se formar eram como tentáculos, exatamente cinco saindo da mão dela, eles se tornaram brancos e de aparência gasosa assim que superaram o comprimento de 10 centímetros, eu observava com espanto, eles cresceram mais, e muito rapidamente, e logo cada um deles tinha o comprimento de um corpo adulto, aqueles apêndices bizarros se enrolaram em volta do meu corpo, mas sem me encostar, e o que eu senti foi medo. Ainda assim, só observei, olhando para os lados, enquanto eles se moviam em volta de mim como fios de marionete, eles eram absolutamente brancos e tinham uma aparência um pouco transparente, dissipada, gasosa, como se tivessem uma densidade baixíssima, mas não o bastante para serem chamados de gás realmente.
- Isso é um dom, eu tenho o controle sobre a energia e posso convertê-la nesse material que você está vendo agora, ele é basicamente energia espiritual com formato, por isso essa aparência que você certamente não consegue distinguir. - Ela me disse, com um sorriso desdenhoso que demonstrava o quanto ela estava rindo por dentro do meu receio, os tentáculos engrossaram de uma vez, ficando com a espessura de seis braços humanos que dançavam em volta de mim, o meu medo diminuiu ao invés de aumentar, eu sabia que ela não me faria nenhum mal, mas aquilo era totalmente desconhecido para mim, e o ser humano tem naturalmente medo do desconhecido.
- Não fique assustado, é sério, esses braços que você tá vendo não são nada mais do que extensões do meu corpo espiritual. - Ela recolheu todos de volta para seu corpo, e colocou a na cintura, achei que ela não faria mais nenhuma demonstração dos seus assustadores poderes, mas o que vi em seguida foi realmente incomum e surpreendente, ela abriu a boca e uma grande mão são de lá dentro, vinha como vapor, fino por dentro, e crescendo depois de conseguir espaço além dos lábios, posso descrever aquela mão perfeitamente como fantasmagórica, exatamente do modo como as pessoas que ainda vivem imaginam os fantasmas, criaturas brancas, de aparência gasosa. Ela mantinha a boca aberta, a boca fez alguns gestos, movendo os dedos, abrindo e fechando, ela fez um movimento de sugada com a boca e a mão voltou para dentro dela, quando voltava, a mão de energia espiritual apresentou uma aparência absolutamente gasosa, como de vapor de água, diferentemente de antes, quando só sugeria uma certa textura gasosa. A essa altura eu já tinha me acostumado com aquela habilidade, habilidade visualmente assustadora, mas sem dúvidas realmente fascinante.
- Seu dom é muito assustador, eu estou com medo de você agora.
- Ah, espere até conhecer o seu, nós iremos descobri-lo agora mesmo, depois que se aprende a voar, todo o resto fica bem mais fácil. – Luna agarrou-se em minha mão esquerda e apertou com muita força, tentei puxar de voltar e dei um grito de dor, ela iria quebrar meus ossos como se fosse de plástico barato, por mais que tentasse tirar minha mão, eu não tinha força para me soltar, era como uma prensa.
- Tá doendo, pára!
- Fique calmo, isso é necessário. - Ela continuou apertando, meus ossos começaram a se partir, então sim eu dei um verdadeiro grito de dor, digno da dor pungente que senti, como se meus ossos fossem de galinha e perfurassem minha carne, ainda assim aquela mão pequena e forte me apertava. A soquei com a mão direita, livre, exatamente no rosto, não esperava agredir minha amada, mas o instinto de sobrevivência sempre fala mais alto, Luna não reagiu, e continuou apertando, e eu continuei soltando mais gritos e a atacando como podia, batendo em seu rosto, dando murros mal feitos e cotoveladas. O rosto dela ruborizava, mas por mais que eu batesse, parecia que eu estava socando uma parede de concreto, foi nas pancadas que lhe dei que percebi que sua pele não era tão macia e frágil como imaginava, se eu acariciasse seu rosto e seus lábios, era como tocar em uma macia seda viva e delicada, fina e feminina, mas batendo eu podia sentir a rigidez que havia além da pele, uma carne resistente, um corpo forte, rígido, não exatamente carne humana, parecia mais como terra, solo, ela era totalmente sólida. E a dor apenas aumentava, os ossos se quebravam em partes menores, e a sensação era de que minha mão seria reduzida a algum tipo de “papinha”, doía demais, e ela não demonstrou de nenhum modo que pararia, nem sequer em seu olhar, que parecia indiferente e seco. Meu desespero tomou uma forma sobre minha mão direita, pude sentir como se houvesse um grande peso em minha palma, um peso maior do que o do meu próprio corpo físico, e estranhamente eu tinha forças para segurar aquilo, lancei minha mão livre contra o peito de Luna, me aproveitando daquela força aparente, e no impacto ela deu um gritinho, me soltou e foi lançada para trás, empurrada energicamente a uns 2 metros de onde estava, quase caiu no chão, mas se equilibrou e se manteve de pé. Olhei para minha pobre mão esquerda, abri e fechei para testar seu estado, parecia tudo normal, e não havia mais nenhuma dor, como se os ossos quebrados não tivessem passado de um estranho delírio.
- Luna, o que foi isso?
Ela sorriu: - Você acabou de revelar sua habilidade, você me bateu com algo, e o algo que você usou é o seu dom, era energia pura, uma forte massa de energia, é uma habilidade excelente, nós descobriremos se você tem outras, mas depois, ainda temos tempo. Por que você acha que te machuquei? Evoluímos por necessidade, e a necessidade que você acabou de ter foi de se defender.
- Não isso, estou falando da minha mão. Você não a quebrou?
- Não, apenas usei uma habilidade que desenvolvi durante meus vários anos de vida, eu posso criar a ilusão de uma dor intensa em alguém através do contato físico, por isso você achou que estava com a mão quebrada, mas foi apenas dor. E mesmo se não fosse ilusão, aqui no mundo espiritual a cura é bem mais simples, só é necessária energia e habilidade, na verdade, irei te explicar sobre a sobrevivência do corpo espiritual agora. – Ela se sentou na grama com as pernas cruzadas, por um momento seus olhos pareceram maiores que de costume.
- Conte, estou aqui para te ouvir. – Me sentei de frente para ela, pus minha mão esquerda sobre a dela, e segurei suavemente, não queria sentir ossos quebrando de novo, mas apenas o toque daquele pele aveludada, o delicado revestimento de um interior rígido e forte.
- Espíritos são formados basicamente por energia em vibração conjunta, formando uma unidade, essa unidade define o que é um espírito, se essa energia for separada, a unidade se rompe e há a morte espiritual. corpo espiritual tem uma forma original, muitos tem a habilidade de modificá-lo, assim como eu tenho a habilidade de causar dor com o toque, e muitos acabam sendo modificados involuntariamente por vários fatores, mas há aqueles que não podem mudar sua forma, então tem sempre a mesma aparência, mas o natural é a forma humana. E a unidade de que falei pode ser rompida de vários modos, se você é agredido, seu corpo espiritual é deformado do mesmo modo que seria no mundo material, basicamente o comportamento do corpo aqui é o mesmo do corpo lá, se você leva um soco, seu rosto fica vermelho, se você é esfaqueado, você sangra, mas o sangue daqui, nada mais é do que energia concentrada em uma forma avermelhada , se você perde sangue, você perde energia, se você perder uma certa quantidade de energia,a unidade é destruída e você morre. Ao mesmo tempo, se você for ferido em alguma parte específica do seu corpo espiritual por algum tipo de força muito grande, a unidade já é rompida automaticamente, você nem precisa perder a energia, ela se separa e você morre pra sempre na hora.
- Me dê um exemplo. Qual parte específica é essa? E que grande força?
- Bem, geralmente vai ser no centro do seu corpo, se você for um humano na forma normal, não deformado, o que é seu caso, então geralmente será coração e cérebro, respectivamente no peito e na cabeça, e a grande força pode ser uma investida de um espírito mau que tenha uma grande quantidade de energia, por exemplo. E ainda não terminei minha explicação, apenas ouça. Aqui sangramos, nos arranhamos, e também quebramos ossos, o dano que temos aqui causa os mesmo problemas que causam no mundo real, se você quebrar um osso, você vai sentir dor e não vai poder mover a parte quebrada, mas em compensação, tudo se resolve facilmente, pois a capacidade de regeneração espiritual é muito maior do que a material. Por exemplo, se eu fizer um corte no seu braço, o ferimento se regenerará rapidamente de modo involuntário, isso porque a sua energia irá tratar de substituir a parte que foi danificada, mas se o ferimento for maior, você precisa fazer isso conscientemente, e não será exatamente rápido. Por exemplo, se eu cortar sua mão, você precisará concentrar sua energia para regenerar a parte arrancada, e isso exige muita energia e esforço, mas basta imaginar, aqui no mundo espiritual, tudo se baseia em imaginar e desejar, assim como você se imaginou voando, assim como imaginou aquela pancada forte que você me deu com sua energia, algumas pessoas tem maior capacidade de regeneração, como eu, e podem demorar segundos para regenerar algo que outra pessoa demoraria dias pra consertar. Mas claro que há limite, como há um grande gasto de energia para haver regeneração, se você estiver fraco, com poucas reservas energéticas, você não será capaz de reparar nenhum dano, e por exemplo, se você estiver sendo atacado por um espírito mau, e estiver se regenerando aos poucos de cada dano, chegará um ponto que em que não terá mais condição de se curar, e todos os golpes seguintes serão definitivos, chegando ao ponto da sua morte espiritual, ou por ficar sem energia o bastante pra existir, ou por ter um ponto vital para a unidade rompido. Entendeu o que eu falei?
- Sim. – Concordei com a cabeça, não falei mais nada, ainda não havia me acostumado com o mundo espiritual. Podia ainda no mundo material acreditar em uma vida não material como a que tinha agora, mas me adaptar à ela seria uma provação, uma dura provação, mas uma provação facilitada pelo meu amor por aquela cujos olhos encantavam todos os meus sonhos mais doces e felizes, mas essa facilidade não seria a simplificação do processo de adaptação, mas sim, um intenso estímulo que me daria forças para me esforçar e aprender a viver no mundo espiritual. Assim, eu poderia viver com ela, e viver para sempre. Não seria perfeito? Seria, mas talvez não fosse tão simples, geralmente não é, mas se fosse, que pessoa de sorte eu seria, teria a sorte que milhões de pessoas não tiveram: a graça do conhecimento do próprio estado, e a graça de conhecer um amor realizado porém puro e verdadeiro, que faria inveja à forma de amor idealizada por Platão.
- Bem, mas vamos desenvolver seu dom. Tente agora mesmo, vamos, levante sua mão e imaginei que há uma esfera de energia girando nela.
Soltei sua mão e posicionei a minha em forma de concha, imaginando como se uma pequena bola de sinuca feita de uma energia pura e imaterial girasse sobre ela, parecia um pensamento tão simples e natural, logo pude não apenas sentir aquela esfera praticamente sólida rodando sobre minha palma, mas também pude vê-la, parecia uma espécie de gelatina transparente, mas visível, eu podia ver além dela, mas a luz se refratava ao atravessá-la, confirmando sua existência.
- Acho que está dando certo. – Falei enquanto tentava fazer a esfera crescer, do mesmo modo que ma bola de neve cresce quando rola de um lugar alto, e fui bem sucedido, pois aquela esfera crescia à medida que eu imaginava, ganhando uma aparência cada vez mais sólida, deixando a cada instante que menos luz passasse por ela, perdendo sua transparência, sua leveza, e pesando.
- É fácil, não é? Agora imagine que essa esfera se torna uma extensão do seu braço e me toca no rosto. – Luna vigiava atentamente minha atividade, seus olhos eram como os de uma águia que sobrevoa sua presa, prevendo qualquer possibilidade de fuga, calculando todos os movimentos que deverão ser feitos, a angulação, velocidade, com hermética precisão, mas suponho que a intenção dela não fosse me caçar, mas apenas inspecionar na nova tarefa. Imaginei que aquele globo, que já tinha as dimensões de uma bola de queimada, como aquelas que as crianças usam para atingir umas nas outras nos horários de intervalo na escola, descontando a violência que não podem aplicar no dia a dia em um “jogo saudável” onde a mesma é permitida, se estendia como um tentáculo, algo com textura orgânica e comprido, uma serpente, um cipó ou um longo braço sem mão, e esse atento pensamento gerou exatamente um longo e fino tentáculo que saiu da esfera e se moveu de acordo com minha vontade, foi até o rosto de Luna, e a acariciou gentilmente, ela fechou os olhos e sorriu, estava gostando do toque. Para explicar melhor o que era aquela material que agora a agradava, eu poderia descrevê-lo como algo uma massinha de modelar cuja quantidade não era limitada, ela era sólida mas maleável, modelável, poderia ser moldada em qualquer forma, esticada, e objetos separados deste material, que era a minha forma de energia, se tornariam um só se fossem juntados pelo contato, assim como se junta a massinha vermelha com a massinha amarela para se formar a de coloração alaranjada.
- Hum, você está indo bem, mas é fácil. A imaginação e o desejo são a chave, nada além de nossa vontade impera sobre nossas habilidades, e é desejando e imaginando que podemos fazer desse mundo o nosso paraíso, onde nada é impossível, onde nada é limitado. O princípio básico é esse, agora que você, meu querido, o controla, todo o resto será fácil, por si só, não haverá nada que seja possível para alguém como você e que você não saiba exatamente como fazer, aprenderá naturalmente todos as habilidades que seu corpo espiritual lhe permite ter, e não será necessário auxílio meu ou de qualquer outro. Mas ainda assim, agora praticaremos mais, e embora você não precise de auxílio, minha orientação não te atrapalhará, apenas acelerará um processo que ocorreria de qualquer maneira. – Abriu os olhos novamente, brilhavam totalmente, eram a recompensa pelo sucesso da minha tentativa: vê-la com aquela agradável expressão, observá-la feliz me fazia feliz, de um modo altruísta que eu não poderia compreender estando preso a um corpo físico. Ainda assim, uma parte de seu discurso me plantou uma dúvida.
- Mas o que você quer dizer com “alguém como você”?
- Alguns espíritos tem algumas habilidades naturais que outros não tem, habilidades que só eles tem, talentos, fraquezas, e é isso que faz cada um de nós diferente.
- E eu tenho muitas habilidades?
- Não sei, iremos descobrir com o tempo, mas de uma coisa eu sei: Sua energia me atrai naturalmente, como a luz de lâmpada que seduz os insetos noturnos, então suponho que tenha algum dom realmente interessante a desenvolver, um bom potencial, no mínimo.
- Pelo menos faz idéia de que dom seja esse, e de por que eu o tenho?
- Não. Mas agora se concentre em liberar sua energia, se liberte, abra sua imaginação e faça tudo aquilo que for capaz de fazer, não se limite, tente, se for possível, conseguirá.
Segui seu conselho, criei alguns objetos simples, moldei a energia em forma de mangueiras, tacos, longas barras, e era muito mais fácil do que eu imaginava, bastava, de fato, imaginar com atenção. Me dediquei a essa atividade por cerca de uma hora, e então Luna, que me observava, chamou-me com uma leve cutucada.
- Bem, agora que você já tem um pouco de controle das suas habilidades como espírito, nós estamos prontos para partir para o verdadeiro mundo espiritual, além da sua mente.
- Como fazemos para sair daqui e ir para o exterior?
- Me abrace, vou mostrar como é se teletransportar.
Eu a agarrei entre meus braços, seu corpo parecia muito frio na hora.
- Imagine seu corpo virando luz, partículas sem massa, e imagine essa luz desaparecendo, e depois reaparecendo em outro lugar.
- Mas que lugar é para eu imaginar?
- Nesse momento vamos nos transportar juntos, quer dizer que iremos para o local que eu imaginar, você apenas irá me seguir. Mas bem, pra se teletransportar basta fazer o que eu disse e imaginar o lugar para onde você deseja ir, mas é isso que limita esse dom, pois não se pode ir a nenhum lugar aonde nunca se esteve, porque senão, é impossível mentalizar o local, e mesmo se tiver visto por foto, não adianta, pois do mesmo modo, você não esteve lá. Além disso, uma pessoa normal não consegue se teletransportar para um local próximo que esteja no alcance do seu campo de visão, além de certas regiões do universo terem acesso limitado, por possuírem várias barreiras ou limitações do gênero, como é o caso do Inferno, onde o único modo de chegar é entrando passo à passo, ou morrendo com a baixa frequência de espírito.
- Entendi. - Fechei os olhos e imaginei o que ela falou, senti por um momento como se tivesse morrido, e quando os abri novamente, me vi em um local que parecia uma grande escola, universidade, e onde vários espíritos vagavam, conversavam, bebiam, comiam.
- Incrível, onde estamos? - Me soltei do abraço, podendo sentir um leve cheiro de ferrugem no ar.
- No mundo espiritual, eu preciso terminar de explicar ainda. – Me pegou pela mão e fomos andando para a saída daquela escola, chegando à rua, onde caminhamos juntos, com ela no comando.
- Explique.
- Existem frequências altas e baixas em espíritos, os de frequência semelhantes se reunem em regiões semelhantes, pois a lei deste mundo é: semelhante atrai semelhante. Quando você se teletransporta, você precisa se concentrar em emoções da mesma natureza do local para onde deseja ir, tentar, e conseguir sentir um intensa alegria pode te trazer um local razoável como estamos, a menos que alguém te leve, como fizemos, Se sentir tristeza, vai para algum lugar ruim, dependendo do tanto dessa tristeza, para algum lugar realmente perturbador, mas se sentir amor, muito amor, se concentrar bem, pode ir a um lugar como o céu, onde os espíritos de luz habitam, já se experimentar sentir do mais profundo ódio, sua destinação será de fazer o Inferno parecer um parquinho de crianças. Ah, e naturalmente, dependendo da sua natureza: depressivo, festeiro, egoísta, altruísta, não há como ir a certas áreas, pois a natureza delas é totalmente contrária à sua, por isso eu não posso ir pro céu.
- Pode me dizer que lugares terríveis são esses para onde se vai com a tristeza e o ódio?
- Não, você descobrirá do modo certo, só contar não mostra a complexidade desse universo, meu amor, você precisa ver e sentir de tudo para realmente entender o que é a vida dos que já morreram.
- Esses espíritos. - Olhei em volta, era como uma cidade normal, pessoas de todas as idades, sexos, aparências, estilos de vestimenta, tamanhos, uma diversidade completa, complementado com praças, restaurantes, barracas, casas de todos os estilos, uma sociedade espiritual feita à imagem e semelhança do mundo físico. Ou teria sido o contrário? Vi um homem de óculos redondos com a aparência de uns 50 anos que me chamou a atenção, ele tinha uma expressão triste e um enorme bigode debaixo do nariz, seu cabelo estava desgrenhado e seus olhos fundos, ele escrevia alguma coisa em um caderno, sentado sobre o banco de uma espécie de um barzinho, tinha um copo sobre a mesa que parecia de cerveja. Aquele homem não me era estranho, um rosto já visto antes, mas onde? Só tinha que pensar um pouco, usar minha memória e recordar daquelas feições que eram definitivamente marcantes... sim, lembrei, e para me assegurar de minha certeza, fui até ele, pedindo licença a Lina, que esperaria meu breve retorno, mas não falaria com o senhor.
- Olá senhor, como se chama? Estou nesse mundo faz pouco tempo, mas sei que já vi seu rosto antes, só não me lembro de onde.
Ele se virou para mim, e com a expressão bastante séria respondeu, a língua que disse não era nem de longe português, mas sim alemão, mas eu entendi cada uma de suas palavras, como se falasse a minha língua mãe, e pelo jeito, ele também havia entendido o que eu havia perguntado. E a resposta para minha pergunta foi como uma luz, a luz que um mero tolo recebe diante de um grande sábio:
- Sou Friedrich Nietzsche.
- Oh, Nietzsche, sabia que era o senhor, mas diante da morte, a certeza se evanesce como névoa, não me arriscaria a confundir estas feições com alguém parecido, não sei afinal quantos espíritos de rosto parecido podem existir.
- E tu, jovem que falas, como é teu nome? E de onde vens?
- Meu nome é Artur Leon, e vim de Brasília, capital do país Brasil, que vem ascendendo na hierarquia mundial e tomando um lugar entre as maiores potências mundiais.
- Bom, e que assunto desejar tu tratar comigo? - A voz dele soava sempre extremamente formal.
- Eu só gostaria de conversar, sou um grande admirador se sua obra, especialmente de "Assim Falou Zaratustra". Mas quem diria que encontraria o senhor logo aqui? Na vida eterna! E peço com toda a humildade que tenho que me conte se há um Deus vivo e onipotente nesse mundo, como o que o senhor negou em vida. Existe?
- Sim, existe um Deus, mas não sei se ele é onipotente, nunca o vi, nunca o ouvi, nunca o senti, apenas ouvi falar, ele mora no paraíso, o local onde as almas mais evoluídas, mais iluminadas estão, um lugar de luz e felicidade, pelo menos pelo que dizem. Já nós, estamos na cidade de Sofia, uma das inúmeras cidades espirituais que estão entre o Céu e o Inferno, reservadas para aqueles que não são negativos o bastante para os locais mais baixos, mas também não são o bastante virtuosos para o Céu, nós que temos a frequência mediana vamos para essas cidades espirituais, esta aqui, cidade de Sofia, é o lar dos pensadores, aqueles cuja mente tem a frequência de um filósofo.
Nesse momento me virei para Lina. Ela não era uma filósofa, era? Besteira, ela poderia muito bem controlar a própria frequência para nos enviar ao local aonde estávamos, ou a qualquer outro lugar pelas cidades espirituais, certamente todas, ou pelo menos quase todas, ao alcance da frequência dela. Gesticulei para que viesse até mim, e ela entendeu, se aproximando, Nietzsche a cumprimentou.
- E tu, senhorita, quem és e onde vens?
- Sou Luna, eu já não me lembro de que país eu vim, morri faz muito tempo.
- Senhor Nietzsche, o que acontece é que minha amada companheira foi quem me trouxe até aqui, e gostaria que me desse sua sincera opinião sobre que país acha dela. Olhando a primeira vista, e sentindo tudo o que ela emana, diria que é um anjo ou um demônio?
- Bem. - Ele segurou o queixo e pensou um pouco, respondendo em seguida. - Olhos de loba, é o tipo de pessoa que eu admirava quando viva, forte de desejo, capaz de controlar seu próprio destino e quebrar os obstáculos, mas pelos olhos, diria que é um demônio, mas não daqueles seres rastejantes e bestiais, mas sim dos que são inteligentes e racionais, racionais ao ponto da indiferença cruel, de não usarem o coração. Ela não tem muita esperança em seu coração.
- É por isso que te chamam de filósofo? Sábio? Como um homem que duvidou da vida após a morte, após a própria morte pode julgar outra morta? Acha que está certo? Como pode saber? Você realmente se acha um sábio? Você não é Deus, e nem melhor que ele! - Lina o interrompeu, estava claramente irritada, seus olhos se dilataram, sua pupila castanha brilhou com mais intensidade diante da explosão de humor. Nietzsche estava certo? Só sei que ele recuou o rosto, levando um susto, talvez estivesse com medo dela.
- Me perdoe, menina, apenas respondi o que ele perguntou-me, mas esse é apenas o meu julgamento, minha visão, e não define o que és em realidade, não me considero um sábio, mas me considero um filósofo, um homem que não sabe tudo, mas que busca conhecer o máximo que pode, mas que anda assim pode errar em seus julgamentos, apenas julguei tais coisas pois teu olhar e o tipo de energia que de ti emana é muito semelhante ao das almas mais desgostosas e más, mas devo estar enganado, sou apenas um filósofo, nada mais. - O tom de voz dele mudou totalmente, inseguro, estava, sem dúvidas, com muito medo, sua boca falava uma coisa, mas sua atitude provava no que realmente acreditava: seu julgamento estava certo, ela devia ser um demônio. Me senti profundamente incomodado em vê-la aterrorizando Friedrich Nietzsche, o homem que não te ve medo nem sequer de Deus.
- Vamos para outro lugar, temos mais pessoas para conhecer. - Ela me puxou com força pela mão, me despedi do bom sábio e fui com ela, o alemão voltou a se concentrar em seus escritos pude ver que quando nos afastávamos, adquiriu uma expressão de alívio no rosto. Ela e eu caminhamos por entre vários espíritos, a maioria com idade avançada, provavelmente os filósofos tendem a morrer mais tarde que os guerreiros, astros do rock e poetas boêmios, fomos até uma biblioteca, e lá, Lina soltou minha mão e abordou um homem que lia uma cópia do Alcorão, tinha uma enorme barba, e passava uma imagem de severidade e força na sua postura, olhar e aparência.
- Senhor Marx, é o senhor? - Ela sorriu gentilmente, uma simpatia claramente falsa, ainda estava irritada pela conversa com o outro filósofo. Aquele era Karl Marx, o pai teórico do socialismo, divisor de mundos, um revolucionário sem fronteiras, pra mim, o melhor de estar em coma, depois de ser estar com Lina, era poder encontrar aqueles grandes homens que fizeram tanto pela humanidade, fui atrás dela.
- Sim, sou eu, e você, quem é, garotinha?
- Sou Lina, não conheço o seu trabalho, pois morri antes do senhor e nunca reencarnei, mas pelo conhecimento que tive ao acompanhar um mortal, então conheci vários pensadores que sequer eram nascidos quando eu vivi, e outros que, graças a minha condição precária, eu nunca ouvi falar, na verdade, nunca ouvi falar de nenhum pensador quando estava viva, a morte acabou por ser a melhor coisa que me aconteceu.
- Então você era uma escrava do capitalismo? Uma explorada da burguesia? E você, menino, quem é? - Se virou para mim, Marx estava interessado em conversar com Lina, agora eu já sabia algo que não sabia antes sobre sua vida mortal: ela era pobre.
- Sou Artur César, um brasileiro filho de professora e sem pai, estudante.
- Bem, não gostaria de dar muitos detalhes, mas eu trabalhei minha infância toda para sobreviver com péssimas condições, e como o senhor vê, eu morri bem cedo, com esse corpo jovem que o senhor vê agora.
- É lamentável que o capitalismo faça tanto mal à humanidade, ele não perdoa crianças e nem adultos, velhos, mulheres, ninguém, todos são escravos, todos são ferramentas. E você, garoto, tem sorte de ter tido as condições de estudar, poucos a têm, pena que tenha morrido. Eu já deveria ter reencarnado, mas aqui há muito aprendizado, coisas que eu nunca veria na terra, eu nunca imaginaria que haveria uma vida além da matéria, mas é ótima, aqui estou entre semelhantes, pensadores incríveis de todos os tipos, é a melhor universidade que já existiu.
- Marx, eu não acredito no socialismo, mas também não acredito em uma sociedade em que alguns nascem com tudo e outros com nada, em que alguns passam fome e outros comem ostras e caviar.
- Se não é a favor do socialismo, que opção acredita ser melhor para essa humanidade desigual?
- Eu não sei, essa é uma das grandes questões da humanidade.
- E realmente é, não posso culpá-lo, mas quando essa resposta for obtida, todo o esforço de todos os cientistas políticos da história será recompensada.
- Sim. - Lina concordou por mim, ela estava gostando da conversa. Me afastei por um momento, e eles continuaram falando, não sei o que diziam, mas logo ela o deixou e veio até mim, chamando para outro lugar, Nós descemos uma íngreme ladeira, e à medida que descia, podíamos ouvir uma suave canção de... lira? Algum instrumento muito antigo de cordas, uma melodia deliciosamente bela, perfeita aos ouvidos mais exigentes, quando chegamos ao fim da descida, encontramos um grupo de oito homens que jogavam um jogo de tabuleiro que desconheço, riam e se divertiam como boêmios em um bar. Um deles me chamou atenção, era um idoso de boa aparência, que dentre todos eles era o que mais ria. Minha amada o olhava com interesse, e eles todos ignoravam nossa presença, embora ela fosse perceptível, Lina sussurrou em meu ouvido com um tom que chegava a ser sarcástico, como se contasse uma piada, talvez por tanto que aquilo parecia incrível:
- Aquele do meio é Aristóteles, o sábio que fundamentou toda a sabedoria de nossa cultura ocidental.
- Podemos falar com ele, ou está muito ocupado? - Olhei para ela receoso, aqueles homens pareciam muito ocupados, e nada interessados em serem incomodados por duas crianças curiosas.
- Não, só queria que visse que ele pode ser um grande gênio, mas é um homem como qualquer outro, ele está lá, jogando e rindo com outras pessoas, como um adolescente, como um bêbado. Você não precisa ser sempre e abrir mão de todas as suas alegrias para ser um sábio, pra conseguir conhecimento e pensamento crítico, você pode muito bem rir de piadas infantis, sem por isso, ser chamado de infantil. Ah, e só pra completar, esse filósofo pode reduzir a nada sem nenhuma dificuldade, Aristóteles é o espírito mais poderoso da Cidade dos Filósofos, é o líder e também aquele que protege a cidade contra invasões de espíritos mal intencionados, embora permita visitas pacíficas como a nossa.
Observei Aristóteles por mais um tempo, de fato parecia um homem normal, nada além de um ser humano, podia ser um sábio, podia ser o pai da filosofia moderna e precursor de várias ciências, mas ainda assim, um homem.
- Sócrates e Platão também estão aqui?
- Não, sei que Sócrates já está no céu, e Platão eu não sei, deve ter reencarnado. Mas segure minha mão, já vimos o bastante nessa cidade, quero agora que vejamos a cidade dos cientistas, faça como antes, para se teletransportar. - Ela pegou em minha mão e fechou os olhos, fiz o mesmo, e imaginei meu corpo se desfazendo, se movendo como luz, logo que abri os olhos, estávamos em uma biblioteca muito maior do que em que Marx estava, haviam milhares, senão milhões de livros nas estantes, as mesas cheias de leitores atentos, eu podia sentir o conhecimento, a sabedoria que emanava no ar daquele local, era como respirar ciência. Reconheci Isaac Newton, que estava sentado em um local próximo de onde estávamos, ele lia o livro de literatura "Cândido"de Voltaire, um dos filósofos que eu ainda desejava conhecer. Me aproximei do físico, e o cumprimentei.
- Newton, o grande físico! Sou um grande admirador de seu trabalho, as leis naturais que o senhor definiu mudaram o rumo do mundo. - Falava com empolgação, aquele ela era sem dúvida um dos homens mais importante para a ciência em toda a história, ele estava com sua conhecida peruca branca, mas usava uma roupa diferente das vistas em fotos: um terno tipo smoking.
- Prazer, quem é você? - Ele sorriu, devia se sentir bem pelo reconhecimento e admiração de um total estranho.
- Sou Artur, do Brasil, morri faz pouco tempo. - Omiti o fato de não estar morto, mas em coma, mas isso não seria importante para a conversa. - E vim aqui para conhecer as pessoas que mais fizeram diferença no mundo, o senhor com certeza é uma delas, leis de Newton, leis naturais. Que outra lei científica ilustrou melhor a visão iluminista? A racionalidade acima de tudo! O pensamento é a lei!
- O pensamento é a lei! Sim, jovem! É exatamente esse o espírito, e trate de reencarnar, pois você morreu muito cedo, e alguém com esse pensamento não pode ficar muito tempo aqui, precisa ir pra terra, fazer diferença. - Isaac também estava animado, era a conversa de dois apaixonados pela ciência, o mestre, e seu modesto aprendiz, mesmo que um aprendiz através de escritos póstumos do mestre.
- Então por que o senhor não volta? Sua vida fará diferença nas gerações atuais, assim como fez nas anteriores!
Lina observava tudo de longe, ria baixinho, como se assistisse a dois tolos discutindo assuntos sem futuro.
- Eu já voltei duas vezes desde minha morte, acho que agora posso descansar um pouco,não tive muita sorte nessas duas vidas, na primeira eu nasci na França em plena guerra Franco-Prussiana, e fui morto ainda criança pelos alemães, no mesmo país em que fui Newton, depois nasci em Serra Leoa, e fui morto com 18 anos por um grupo de rebeldes, eles cortaram meus braços antes de me degolarem, foi horrível. Felizmente, consegui superar o rancor aqui no mundo espiritual, e retomar o conhecimento que tinha como Newton, sem sair do caminho do bem e do conhecimento, sem me entregar à violência e ao ódio, mas ainda sim, estou bastante temeroso de voltar para a terra, minha última morte foi pior que traumática, se eu não fosse um espírito já antigo e relativamente sábio, acho que eu me tornaria um daqueles demônios violentos que se vêem lá em baixo, como o odioso Malbas.
Ainda não tinha visto nenhum demônio, mas pelas descrições, deveriam ser terríveis. Mesmo se Lina fosse um, ela não contaria como um, pois para mim, ela era um anjo gentil e doce, a alegria mais pura para minha existência.
- Então, Isaac Newton, o senhor já viveu várias vezes antes de ser Isaac Newton?
- Sim, por isso eu tinha uma facilidade muito grande de aprendizado, pois já tinha aprendido muito em outras vidas. A gente não tem um nome só, mas todo espírito gosta e ser chamado pelo nome da sua encarnação que mais fez diferença na Terra, embora os espíritos menos evoluídos, sem luz, geralmente só consigam se lembrar de sua última vida, e estejam limitados, esses se chamam pelo último nome, ou às vezes, quando, apesar do mal, se tornam poderosos, os demônios, adotam nomes diferentes, como Leviatã e o odioso Malbas.
- O senhor é de fato muito sábio. Mas quem é Malbas? E por que é tão odioso?
- Bem, Malbas é um demônio bastante poderoso que quase destruiu esse lugar, mas foi expulso por nosso líder, o espírito de Albert Eistein, um dos homens mais admiráveis da história da ciência, Malbas é um grande controlado da mentira e da ilusão, por isso ele sempre consegue fugir quando será destruído por alguém mais poderoso, ele cria de todo tipo de ilusão para escapar quando vê que não têm condições de sobreviver. Como Einstein não é estúpido de sair de nossa cidade para ir caçá-lo na dele, e também não tem estômago para descer a um local tão baixo e imundo, ele o poupou, mas nunca esquecemos do mal que aquele monstro nos provocou.
- Então Einstein é o líder dessa cidade, desse mundo?
- Sim, exatamente, ele é o mais iluminado de todos nós, um homem justo e sábio, que nos protege com sua vida, com sua força, com sua inteligência, e com sua imensa sabedoria principalmente, o quem faz com que nos sintamos sempre seguros.
Luna me puxou pela gola da minha roupa e chamou impacientemente:
- Não acha que já conheceu espíritos admiráveis o bastante por hoje? Devemos nos concentrar em nos preparar para salvar sua vida, mas não faremos isso aqui.
- Gostaria muito de conhecer mais, estar entre sábios faz com que se adquira parte da luz de sua ciência e sabedoria, como o calor que fica na pedra que é submetida à luz do Sol, uma marca de que aquela luz maravilhosa esteve realmente lá. Mas temos pressa, não desejo morrer ainda, a gente realmente precisa descobrir quem foi o criador da barreira no meu corpo, e descobrir se temos condições de vencê-lo.
- Vejo que sua companheira o quer levar embora, me despeço então, Artur, foi bom conhecê-lo.
- Adeus Newton, a honra de conhecê-lo foi uma das maiores que já tive em minha vida, espiritual ou não. – Dei-lhe um aperto de mão e me afastei junto de Luna, logo direcionando minhas palavras ela: - Por que realmente temos que partir? Não está boa esta excursão? Não estou conhecendo o que antes ignorava e tendo acesso a sabedorias que já não estão vivas no mundo material?
- Você está adquirindo conhecimento sobre territórios e pessoas, o que quero que façamos agora é que treinemos seu controle sobre o espírito.
- Mas você não tinha dito que com a noção que tenho eu já estou pronto? Que basta imaginar e concentrar? Pois bem, então não foi o bastante?
- Pode até ser, mas devemos garantir, entende? Quero ter certeza de que você não terá problemas no caso de um imprevisto.
- Que tipo de imprevisto é esse com que você tanto se preocupa? Algum espírito ruim?
- Também, nunca se sabe.


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