sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Divina Tragédia - Parte 4


Capítulo 4 - Os Dons

Ela se agarrou a minha mão, não questionei mais, fechei os olhos, e quando os abri, já não sabia aonde estava. Era um campo aberto onde havia plantações de arroz, algodão, batata, o alimento do século, entre outros vegetais, elas eram desorganizadas e as plantas quase se misturavam, estávamos na entrada de um celeiro, de onde saía um fétido odor de fezes de animais, que me infestavam as narinas como as correntes de um rio. O celeiro era todo feito em madeira de má qualidade, dentro se encontravam apenas dois animais, por trás de portinhas para que não fugissem, eram duas ovelhas, ou carneiros, não podia ver exatamente o gênero, não de onde eu estava, mas pareciam magras, e o pêlo de ambas era de um amarelo escuro e encardido, já sabia de onde vinha o mau cheiro.

- Que lugar é esse?

-Cada pessoa tem seu lugar no Universo, quando você está vivo, esse lugar é impenetrável sem a permissão do dono: sua mente, uma diferente dimensão, mas quando você morre, tudo muda, esse lugar particular continua no mesmo local, mas deixa de ser impenetrável. Cada espírito tem sua mente, seu mundo, mas ela passa a ser um local como qualquer outro no universo, e por isso pode ser encontrada e penetrada, um lugar de livre circulação, embora seja meio difícil se encontrar um ponto como esse em um mundo espiritual de tamanho infinito, as chances de se encontrar uma mente são de zero, mas se você seguir um espírito, rastrear, se teletransportar seguindo sua freqüência, então essa mente alheia se torna acessível mesmo sem permissão.

- Por que você está deixando tudo isso tão claro? Acha que alguém pode invadir sua mente?Por acaso está sendo perseguida por alguém? Desde que nos encontramos que ela vinha demonstrando uma intensa paranóia, sempre preocupada em me preparar, com imprevistos, riscos, com o fato de ume mente pode ser invadida. Estava a sua segunda morte jurada por alguém?

- Há as mentes que são particulares, e os planos, que são coletivos, onde espíritos de freqüência parecida e mesma natureza são reunidos. – Ela manteve sua expressão, simplesmente ignorou a minha pergunta.

- Responda a minha pergunta agora. – Pela primeira vez soei grosseiro com Luna.

- Não, eu não estou jurada de morte, eu só vi o pior lado que esse mundo pode apresentar, então confie em mim, você deve estar preparado para o pior, nós devemos, se morrermos aqui não teremos uma segunda chance, nenhum tipo de chance. – Tinha a voz chateada, acabei me arrependendo pelo meu tom de voz, ela devia ter razão.

- Desculpe. – A abracei, seu rosto colado no meu parecia mais macio que da primeira vez.

- Vamos ver como estão seus reflexos. – Sorriu e se separou de mim, se afastando alguns metros e esticando o braço.

- Vam... – Não pude terminar a frase, nem sequer a primeira palavra que diria, pois aquela imensa mão me atingiu na forma de um punho, saído como uma extensão de seu braço esquerdo, fui lançado no chão e rolei como uma bola de futebol, ralando meu corpo todo e sentindo dor. A dor espiritual, de fato, não é como a dor física, não dói realmente, é uma impressão de dor que causa um forte desconforto, uma impressão tão forte que chega a ser como a dor física, mais suave, diferente, mas também muito desagradável.

- Não estão bons. – Ela recolheu sua falsa mão. Eu não imaginava que o material que ela controlava fosse tão rígido, parecia que eu tinha sido soterrado por um deslizamento de terra, mas que com um corpo espiritual mais resistente que o físico, não teria sido isso o bastante para me matar. A dor passou em poucos segundos, a capacidade de regeneração da alma entrava em ação, me levantei, hesitando com medo de levar outro daqueles, então gritei:

- Por que você fez isso?

- Doeu muito? – E tinha.

- Sim!

- Então da próxima vez que eu fizer você estará atento, quando uma criança se queima no fogão, ela passa a ter cuidado com fogo, a mesma regra se aplica a você. Use sua energia para criar uma proteção, a forma da barreira só dependerá da sua imaginação, claro, mas esteja atento, pois não terei piedade na violência com que te atacarei.

- Você só quer dizer que acha que me machucando vai fazer com que eu... – Não pude terminar a frase novamente, a mão veio novamente, mas a tempo me concentrei em uma espátula de energia de mesmas proporções, e rebati a agressão, que não me atingiu, mas por pouco. Havia dado certo, embora a minha criatividade não estivesse muito alta no momento, de fato não era hora para fazer omelete ou panqueca.

- Vê? Funciona! Tente me atingir agora. – Recolheu novamente o apêndice, colocou as mãos dentro da calça como se fosse se coçar em alguma parte indevida, não era boa hora, mas não pude evitar imaginar o percurso daquelas mãos, tocando constantemente naqueles segredos e maravilhas que se ocultavam em sua roupa e... enfim, fiquei com os pensamentos um distante nessas idéias, até voltar a me atentar a realidade.

- Devo te bater?

- Sim. – Ela continuava com as mãos lá, dava para ver pelos movimentos dos braços que realmente se coçava ou esfregava ou alisava.

- Mas por que você ta coçando dentro da roupa?

- Roupas espirituais são ornamentos com baixíssima quantidade de energia, mas complexos de se criar, aqui inicialmente usamos a roupa que tínhamos no corpo antes de morrer, mas geralmente podemos mudá-la com apenas um pensamento, desde que tenhamos a lembrança de que usamos essa roupa em vida. Só estou escondendo a mão, para mostrar que não reagirei, não estou coçando, só passando a mão, nem é por nada de especial, só por passar. E por favor, me bata logo, quero ver a intensidade desta sua energia

Não falei mais nada, me concentrei bem para poder moldar uma marreta de energia, que joguei contra o rosto dela, mas não pude fazer isso com muita força, não porque não tivesse, mas porque não teria coragem de machucá-la realmente, a marreta se chocou no meio do rosto dela, que nem sequer se moveu, apenas a arma recuou, e ela se manteve parada, como uma estátua, com muita decepção nos olhos. Eu explicar o porque do golpe fraco, mas ela lançou aquela já conhecida mão em mim, pude bater a marreta na frente, e ela repetiu o movimento, e nos encontramos em um duelo, golpeando e defendendo mutuamente, agora eu usava força, pois se não usasse, quem se machucaria seria eu. O estrondo das pancadas dos objetos por nós criados era como os sons graves e agudos de uma construção, havia um certo ressoar metálico naquela falsa mão, um som agudo em cada batida, estridente e agônico, enquanto minha marreta tinha som de madeira, bastante grave e abafada. Eu colocava toda a minha força nos movimentos defensivos. Mas como eu poderia explicar o que é a força que você pôe em um objeto controlado pelo pensamento? Nada mais do que concentração, esforço, foco, e claro, pensamento, imaginar que realmente há força naquele movimento, acreditar e se concentrar nessa idéia, é isso que faz a força espiritual. Aquilo parecia um duelo de espadas medieval, e eu começava a perceber que Luna não estava de fato tentando me acertar, mas só me induzindo ao movimento, na verdade, já começava a me divertir, me sentindo Romeu em combate ao primo de Julieta, embora meu adversário fosse a minha própria Julieta. Todo esse entretenimento ingênuo se quebrou quando a mão atravessou minha marreta como uma enxada atravessa uma folha de papel, e me esmagou. O que senti foi a sensação de morrer, o corpo todo bateu e rebateu no chão, os ossos, por um momento, pareceram virar pequenas lascas, músculos se distenderem, sangue parou de correr, um sufoco terrível, uma agonia pontiaguda que me apresentou ao Inferno por um momento, um único momento de sofrimento extremo que acabou assim que a batida acabou, um único maldito momento, a dor foi forte, embora fosse totalmente diferente da dor de física, mas a sensação era de ser exterminado, uma sensação cruel de agonia, podia não sentir a dor de ossos quebrados, mas ainda assim sentia os ossos quebrados. Fiquei jogado no chão, nem sequer podia imaginar que poderia haver algo tão ruim, minha arma se recolheu a meu corpo imediatamente, inconscientemente, e fechei meus olhos, tentando esquecer aquela sensação, que parecia se repetir centenas de vezes.

- Isso sim doeu, não é? – Ela foi até mim e passou a mão no meu pescoço, senti vontade de correr, mas não tinha disposição para isso.

- O que você fez?

- Doeu?

- Muito.

- Nunca mais farei isso, eu sei o quanto é ruim sofrer, meu amor. –Beijou meu rosto. - Eu só queria que tivesse uma noção de como é, eu te bati com força mesmo dessa vez, então o que você sentiu não foi diferente do que você sentiria se fosse atacado por um demônio de grande poder, então se sinta forte, pois você resistiu ao sofrimento, e isso me deixa orgulhosa.

- Não tinha como simplesmente continuarmos a brincadeira, eu estava aprendendo!

- Brincadeira? O fato de eu não estar usando toda a minha capacidade não significa que era uma brincadeira, se você deixasse eu te acertar, eu acertaria do mesmo jeito que fiz, mas como não deixou, tive que acertar à força mesmo, e peço desculpas por isso.- Subiu as carícias até meu pescoço, Luna teria que me agradar muito mais que aquilo se quisesse compensar aquele segundo horrendo.

- Você é cruel.

- Eu posso mudar, se você realmente quiser muito.

- Muda? Então não seja mais cruel comigo, seja boa e carinhosa.

- Tudo bem, eu serei um anjo para você. Mas que tal irmos a outro lugar agora? Acho que você iria gostar de conhecer mais alguns dos maiores cientistas da história.

- Sim, eu gostaria de voltar ao lugar onde estávamos, conheci Newton, e seria muito agradável conhecer outros grandes, compartilhar de várias sabedorias de várias épocas e culturas.

- Então iremos. – Pegou em minha mão e gesticulou com a cabeça, eu sabia o que fazer, fechei meus olhos, e quando abri, estava de volta à Cidade dos Cientistas, no mesmo ponto de onde havíamos voltado, trocamos algumas palavras sem importância e começamos a caminhar pelas ruas cheias de gente, olhando rosto por rosto para ver se reconhecíamos alguém dos livros de ciências, estávamos entre centenas de sábios anônimos, de homens que em parte contribuíram para a evolução da humanidade, mas que não foram reconhecidos ou premiados por isso, pessoas que dedicaram suas vidas ao bem, a trazer luz aonde havia trevas. Ciência! Reconheci um homem com roupa de nobre na moda européia do século XVIII, com um grande peruca branca na cabeça, escrevia em um bloco de notas usando pena e tinteiro. Me aproximei, e tive certeza de que era ele: o pai da química moderna.

- Senhor Lavoisier, sou Artur, um verdadeiro admirador de seu trabalho. – O cumprimentei como um estagiário cumprimentaria um provável patrão.

- Olá, o que quer? É que estou meio ocupado, estou escrevendo um livro chamado A Química dos Espíritos, com pesquisas minhas sobre a composição do mundo espiritual, de que tipos de partículas ele é formado, como elas se comportam, e como se agrupam.

- É impressionante, senhor, espero que haja alguém para psicografá-lo e tornar esse conhecimento acessível aos vivos. Mas então me despeço, só gostaria de tê-lo conhecido, e acho que já o fiz, então devo deixá-lo continuar seu trabalho. – Fiz uma reverência e me virei, dando o primeiro passo da minha ida, mas parei quando senti a mão dele em meu ombro:

- Pare, eu posso sentir algo muito incomum em você. Você está vivo?

- Sim, estou. Como sabe disso? – Me virei novamente para o grande químico.

- Dá pra sentir, a energia de um vivo é diferente da de um morto, mas a sua é realmente diferente até da daqueles que estiveram por aqui antes, é como se você estivesse vivo e morto ao mesmo tempo, e não vivo no mundo mortos, como qualquer pessoa normal.

- Como assim, o que isso significa? O que eu tenho?

- Se acalme, eu não sei o que você tem, mas é estranho, eu te aconselharia a ir me encontrar com Einstein, o nosso líder, ele pode ser o maior de todos os espíritos da ciência, mas sempre encontra tempo para ajudar aqueles que buscam ajuda, além do mais, tem muito conhecimento e é sábio, saberá dizer o que você tem.

- Oh, eu agradeço, senhor Lavoisier. E onde posso encontrá-lo?

Ele me deu as orientações de por onde ir para me encontrar com Einstein, era um longo caminho, mas simples, ele estaria, após muitas andanças, na sala número 720 de um longo corredor, pelo qual deveríamos passar, e deixou claro que deveríamos bater em sua porta e chamá-lo por “mestre”, para deixar claro o nosso respeito e não permitir que o líder achasse que éramos invasores ou baderneiros. Me despedi do bom cientista, agradecendo mais vezes, em nenhum momento de nossa conversa ele deu atenção a minha companheira, simplesmente ignorando sua presença silenciosa, talvez não tivesse realmente nenhum possível assunto um com o outro.

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